IL /CHEGA – Uma Moção com juras de amor eterno

Alexandra Tavares de Moura, Ex-deputada, Secretária nacional das Mulheres Socialistas – igualdade e direitos

Sentado a observar o fim do dia, André Ventura reflete sobre os resultados das distritais do seu partido e percebe que estes podem significar o fim do estado de graça, que o tempo do “ninguém me faz frente”, acabou.

Começam a surgir pequenos núcleos, uns com mais força, outros com menos. Questionam, vão a eleições e ganham terreno. Estas eleições terão impacto no próximo congresso que terá de se reunir, mais uma vez, extraordinariamente.

Já lá vão cinco congressos. Quase todos convocados de forma extraordinária e urgente, pois os seus estatutos não respeitam a Constituição da República.

Parece de somenos, mas não é. Toda a nossa legislação respeita a lei fundamental do país. E quando há dúvidas, é um coletivo que determina se há ou não, respeito pela constituição. Foi o que aconteceu desta vez. Um conjunto de militantes do CHEGA perguntou ao Tribunal Constitucional se a última reunião magna (onde se fizeram alterações aos estatutos), é ou não, válida. Não é.

Voltando à reflexão de André Ventura.

Os argumentos que usou para se defender de mais esta declaração de inconstitucionalidade, foram de que o CHEGA está a ser alvo de censura. Disse-o na SIC, no programa “Expresso da Meia-Noite”, repetindo a palavra censura até à exaustão.

Pelo caminho decorreram as eleições distritais e o xadrez interno começa a mudar. O seu reinado de one man show não tem a mesma pujança.

Na sua reflexão concluiu que o melhor seria aproveitar a onda das censuras e começar os trabalhos parlamentares com uma moção de censura ao governo.

Para a discussão da moção (que será votada na próxima terça feira) já se sabe o resultado.

O PCP considera-a uma manobra de distração e diz que não responde às necessidades do povo.

O PSD já afirmou que não vota esta moção pois a sua prioridade é discutir os rendimentos dos portugueses e quer estar centrado na discussão no parlamento, sobre os impostos às famílias (sim, agora, e estranhamente estão preocupados com a carga fiscal das famílias…).

Já a IL, que no passado também apresentou uma moção de censura ao governo, afirmou, pela voz da deputada Patrícia Gilvaz, que se sentiram confrontados “com um dilema” (vá se lá saber o que isto significa) e anunciou o voto a favor.

Fica claro, no arranque dos trabalhos parlamentares que CHEGA e IL estão juntos. E que qualquer pirueta política lhes serve. Aliás, o mais importante desta moção de censura, não é a moção em si, mas sim a ligeireza com que a IL se alia ao CHEGA. É isto que interessa reter. IL e CHEGA estão alinhados. Juntos. Coesos. Usam estilos próximos. Argumentos semelhantes. E as estratégias de ataque são as mesmas.

Nada que não se esteja à espera. Já vínhamos notando nas políticas locais, no palco da assembleia municipal de Oeiras, que a sua deputada municipal e também chefe de gabinete do grupo parlamentar da IL na Assembleia da República, a partir do momento em que a IL mudou a sua liderança nacional, colou–se ao CHEGA.

E é assim que se promove o afastamento das cidadãs e dos cidadãos da política. Com manobras de distração que em nada contribuem para a melhoria de vida das pessoas, das instituições e das empresas.

Distrações que só têm como objetivo criar factos políticos. Sumo que depois de espremido, bem explicado, não é exatamente o que parece.

Resumindo: apesar do parlamento já ter recomeçado o seu trabalho, só a partir de quarta-feira é que se irão debater as políticas públicas que realmente importam. Na agenda temos o Orçamento de Estado que começa a ser discutido em outubro, e que trará para a mesa das negociações matérias importantes: a limitação dos efeitos das taxas de juro nos empréstimos de habitação (ao contrário do passado em que se alteraram as regras de despejo o que levou muitas famílias a viver em precariedade); as políticas de habitação e a necessidade imperiosa de resolver este problema que mais ninguém, ao longo da democracia, teve coragem de enfrentar; a redução da carga fiscal das empresas e das famílias e ainda, no quadro da descentralização das competências para as autarquias, o reforço dos recursos necessários para a implementação desta reforma que trará mais proximidade, logo, soluções mais rápidas para as pessoas.

Este é o quadro dos próximos tempos: à direita, o despique pelo lugar de charneira, de comando, à esquerda… ainda não se percebeu… e o que importa está na mão do governo e do PS, que terá de encontrar medidas sustentáveis e que garantam que a classe média seja capaz de enfrentar este momento da economia mundial, sem ser destruída, como aconteceu em 2014.

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