A 30 de Setembro de 1983 entra para a história do cinema um filme que ninguém na indústria do cinema conseguiu antever o sucesso. Esse filme é The Big Chill, ou, em português, Os Amigos de Alex.
The Big Chill é realizado por Lawrence Kasdan, que tinha chegado ao sucesso em 1981 com Body Heat, é um thriller-noir onde se lançara também a carreira de Kathleen Turner.
Escrito também por Kasdan em parceria com Barbara Benedek, este filme é composto por um elenco extenso ou ensemble cast de 8 actores já um pouco famosos (mais uns que outros) cujos nomes são, na sua maioria, amplamente conhecidos do grande público. Kevin Kline, Jeff Goldblum, William Hurt, Tom Berenger, Mary Kay Place, Meg Tilly, Jo Beth Williams e Glenn Close foram os escolhidos para esta mistura de comédia com drama, ou drama com comédia, uma vez que o equilíbrio entre os dois está bem presente durante o filme.
Recorde-se que para além da realização, Kasdan é um argumentista de renome e está por detrás de filmes como Os Salteadores da Arca Perdida, e vários dos filmes da saga das Guerras das Estrelas.
Porém, parecenças entre este The Big Chill e Body Heat, ficam-se pela escolha de William Hurt para entrar nos dois filmes.
The Big Chill é um filme feito pela geração boomer, aquela que nasce do pós-guerra, e é também voltado para essa mesma geração que nos anos 80 estava na sua idade adulta.
Por essa razão, e sendo Kasdan um boomer, este filme é uma obra com cunho pessoal, fruto de memórias e observações deste realizador norte-americano.
A história de The Big Chill roda à volta de um grupo de amigos dos tempos de universidade que se juntam durante um fim-de-semana por ocasião do funeral de Alex que se suicidara.
Este grupo simboliza um colectivo de vivências e escolhas dos seus indivíduos que representam as ansiedades de uma geração que reflecte sobre as perdas e consequências dos caminhos escolhidos. Dessa forma, cada um deles corresponde a uma perspectiva e um perfil que funcionam como um espelho ou fotografia das transformações que a vida lhes trouxe.
Berenger é um actor de uma série televisiva de sucesso, que sente que ninguém o leva a sério e as pessoas à volta dele não o conhecem. Assim, é neste grupo de velhos amigos que ele se sente mais próximo da sua identidade e de quem um dia foi.
Hurt é um veterano da guerra que não se consegue ajustar à vida mundana e através do abuso de estupefacientes que se mantêm preso à vida.
Kline é agora um empresário cheio de sucesso financeiro e o anfitrião que cede a sua casa para que o grupo se possa juntar.
Williams é uma mulher casada, mas enjaulada num casamento onde é infeliz, mas de onde não consegue sair.
Goldblum é um jornalista cínico que escreve sobre celebridades e odeia, os seus artigos, as celebridades e a sua própria audiência.
Place é uma advogada que se sente repugnada pelos seus clientes e sente um vazio na sua vida que só pode ser preenchido por aquilo que lhe falta como mulher que é ser mãe.
Close é a mulher de Kline que assume o papel de anfitriã e com o marido representam a coesão deste grupo, ainda que Close seja secretamente apaixonada por Alex.
Tilly é a última namorada de Alex e é a única que não pertence a este grupo. Por isso é também a única que não tem queixas sobre a sua vida ou sobre as suas escolhas, porque ainda não as fez.
No entanto, este é um filme também sobre as reacções destes jovens adultos às escolhas que fizeram entre os ideais da juventude e a pressão da vida adulta. Goldblum, apesar de ter uma namorada algures, traz preservativos para este fim-de-semana. Williams está disposta a cometer adultério, Hurt que é impotente, demite-se do seu talk-show por razão de uma crise existencial. E mesmo o valor da exclusividade do casamento é transgredido quando Place quer ter um filho cuja semente é providenciada pelo anfitrião casado, Klein.
Este contexto de partilha é efectuado maioritariamente entre a sala de estar, a mesa de jantar e a cozinha onde a força e alegria do ensemble se sobrepõe às ansiedades existenciais.
Dessa forma há uma bolha que é criada através das histórias partilhadas, da identificação das personagens umas com as outras e o espaço seguro onde elas, durante um fim-de-semana podem falar das suas preocupações sem se preocuparem.
Para que este filme conseguisse traduzir a mensagem pretendida por Kasdan, este grupo de actores foi submetido a quatro semanas de convívio intenso para que, quando a filmagem começasse, tantos os diálogos como os olhares entre eles fossem fruto de uma amizade real.
Outro aspecto não menos importante é a banda sonora. Esta foi escolhida pela mulher de Kasdan, Meg, e é também mais um cunho pessoal por serem as músicas impactantes na vida dos Kasdan. São vários artistas desde Rolling Stones a Credence Clearwater Revival e talvez o mais fantástico de todos, Marvin Gaye, com a música I Heard You Through The Grapevine.
Kasdan consegue assim transmitir o pessimismo real da geração à qual pertence, longe das esperanças do pós-guerra. No entanto, dentro do pessimismo encontra-se uma história humana com imensa camaradagem de uma geração extremamente absorvida em si mesma. No fundo, é um paradoxo trágico e cómico com ansiedades de significado existencial, o peso das regras e alguns problemas que na verdade não são muito problemáticos.
De qualquer forma The Big Chill, como o nome indica, é o esfriar que acontece nas vidas fruto das consequências entre as espectativas de quem os boomers queriam ser e aquilo em que se tornaram.
Alex, (que é protagonizado por Kevin Costner), e mais significativamente o seu suicídio, simboliza a impossibilidade da permanência jovial e a imensa dificuldade em fazer o luto da juventude e ao mesmo tempo aceitar as responsabilidades e aborrecimentos do quotidiano.
The Big Chill é um enorme sucesso do cinema que dependeu largamente da qualidade dos actores que dão vida a conversas que qualquer pessoa dessa geração podia ter. Faz 40 anos e está de parabéns.


