E Mulheres?

Alexandra Tavares de Moura, Ex-deputada à assembleia da república e secretária nacional paras as Mulheres Socialistas - Igualdade e Direitos

Não vi nenhum ou nenhuma jornalista, nem comentador ou comentadora, questionar o porquê de em 2023, 50 anos após o 25 de Abril de 1974, num partido que trilhou e que lançou o caminho da Igualdade, num partido pioneiro na assunção de mecanismos que promovem o equilíbrio de género nas listas com que se apresenta a eleições, num partido que impulsionou e criou a legislação que está alinhada com os valores da igualdade nas áreas da saúde obstétrica, das licenças de parentalidade, da igualdade salarial, das quotas para cargos empresas e titulares de cargos políticos, da paridade nas listas para órgãos de soberania, e tantas outras, perguntar: afinal onde estão as mulheres do Partido Socialista? Não há nenhuma mulher candidata a secretária-geral? Candidata a Primeira-Ministra?

Discutia-se a Interrupção Voluntária da Gravidez no momento da minha vida pessoal em que assumi o divórcio. Este facto apenas é referido porque à época, fui convidada pelo presidente da estrutura concelhia do PS para representar o SIM, num painel com vários nomes sonantes, em Oeiras. A escolha do meu nome causou perturbação entre os machos, pois “está num momento frágil” e não será “capaz”.

Fui ao debate. Dos primeiros debates públicos em que participei em Oeiras.  E claro, defendi com vigor, com energia e com muita convicção o modelo que defende padrões de saúde pública e que respeita a liberdade de escolha da mulher, modelo em que defendia e defendo (ainda tenho o texto).

Este episódio, com 15 anos, refletia o pensamento sob reptício que se vivia socialmente. Os partidos são o reflexo da sociedade.

Mas vamos à atualidade.

Depois do insólito momento em que o poder judicial conseguiu claramente derrubar um governo com maioria absoluta, impõe-se falar sobre as candidaturas a secretário-geral, ou melhor ainda, sobre as candidaturas a Primeiro-Ministro.

As eleições internas são momentos de vitalidade, de força. São provas de vida dos partidos. Momentos energizantes. Para quem, como eu, faz política nas suas horas pessoais e familiares são momentos que se vivem de forma apaixonante, e a energia cresce de dia para dia.

O debate faz-se de forma aberta, plural e democrática. Discutem-se argumentos. Debatem-se ideias. Fala-se com toda a gente. São horas e horas de trabalho.

Mas não se pode olhar para estas eleições sem usar a lente de género, que se impõe no quadro do debate das causas e consequências das escolhas que fazemos.

Não vi nenhum ou nenhuma jornalista, nem comentador ou comentadora, questionar o porquê de em 2023, 50 anos após o 25 de Abril de 1974, num partido que trilhou e que lançou o caminho da Igualdade, num partido pioneiro na assunção de mecanismos que promovem o equilíbrio de género nas listas com que se apresenta a eleições, num partido que impulsionou e criou a legislação que está alinhada com os valores da igualdade nas áreas da saúde obstétrica, das licenças de parentalidade, da igualdade salarial, das quotas para cargos empresas e titulares de cargos políticos, da paridade nas listas para órgãos de soberania, e tantas outras, perguntar: afinal onde estão as mulheres do Partido Socialista? Não há nenhuma mulher candidata a secretária-geral? Candidata a Primeira-Ministra?

Já sei que vão dizer que este não é o momento para discutir o tema! Que temos que nos concentrar nos problemas das pessoas e das empresas. E no combate feroz à extrema direita, ao populismo e ao aparecimento de movimentos que só servem para fragmentar a sociedade. Mas se este não é o momento para refletir, quando será?

A verdade é que a escolha de secretário(a)-geral tem que garantir que escolhemos o(a) melhor defensor(a) das causas dos direitos das mulheres, não só na capacidade de prepositura de medidas legislativas que nos aproximem do quinto ODS, mas acima de tudo que acredite verdadeiramente que capacitar, persuadir e garantir que as barreiras invisíveis que todas sentimos serão combatidas.

Mesmo sabendo que o que escrevo é gerador de muitas críticas, é bom lembrarmo-nos que os partidos refletem a sociedade e os tetos de vidro que existem no dia a dia.

Consigo rapidamente nomear mulheres que são líderes. Que têm o perfil, as competências, o pensamento crítico, para ser secretária geral do PS e candidata a primeira-ministra.

Mas… não são candidatas!

E este facto significa, tão só, que ainda não assumimos que esse tem de ser um objetivo claro, e que tem de ser assumido sem medos. Não é essa a melhor forma de honrar o caminho e o legado de António Guterres?

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