Em cada Natal, ao longo da minha vida já bem longa, relembro sempre o Natal da minha infância. Girava à volta da construção do Presépio. Era monumental. Ocupava todo o lado direito da Capela-Mor da Igreja Matriz. Semanas antes, começava a apanha do musgo. Lá íamos todos aos pinhais, uns com pá, outros com enxada, outros só com as mãos, todos eufóricos a apanhar o musgo que cobria o monte onde se colocavam dezenas de figurinhas.
Todas as profissões estavam representadas: moleiros, ferreiros, padeiros, mulheres a lavar roupa, outras com cântaros à cabeça, com água da fonte. E claro os pastores, com as suas ovelhas. Havia também meninas finas. Lembro-me duma que me encantava, vestida com uma capa amarela e uma boina na cabeça.
E o melhor de tudo: uma procissão com os mordomos de opas vermelhas, a banda de música, e o Senhor Abade à frente, devidamente paramentado, com o chapéu quadrado com uma borla no cimo. Ao fundo do monte, espreitavam os Reis Magos. Ainda era cedo para aparecerem. A ingenuidade das figurinhas representava a alegria espontânea de todos pelo nascimento desse Menino-Deus, que durante a noite nos vinha pôr presentes no sapatinho que deixávamos debaixo da chaminé. Logo pela manhã, lá íamos a correr ver o que lá estava.
E era uma alegria, fosse o que fosse que encontrássemos. Era dado pelo Menino Jesus. Este Natal já não existe. Crescemos, já não acreditamos que seja o Menino Jesus a dar-nos os presentes, já não vamos buscar musgo aos pinhais, fazemos uma Árvore de Natal, enfeitamos a casa, andamos numa azáfama de compras, mas temos a mesma alegria, talvez até pensemos mais nos outros, agora, do que noutros tempo: há as ceias de solidariedade, lembramos os países em guerra, as famílias juntam-se. É um tempo de vivência comunitária.
E hoje o que é para mim o Natal? Como resposta fui buscar um soneto de Camões de que transcrevo apenas a primeira quadra, que traduz, com a magistralidade que lhe é própria, aquilo que eu sinto que é o Natal:
Dos Céus à Terra desce a maior Beleza,
Une-se à nossa carne e fá-la nobre.
E sendo a humanidade dantes pobre,
Hoje subida fica à maior alteza.
Dos céus à Terra desce a mor beleza
Une-se à nossa carne e fá-la nobre
E sendo a humanidade dantes pobre
Hoje subida fica à mor riqueza.


