No primeiro caso, o intuito do Hamas – mas também da Jihad Islâmica Palestiniana e do Hezbollah – é político, mas a motivação é religiosa. A exemplo do que se passa com o Irão xiita, o grande apoiante destes três grupos terroristas, que continua a ver nos Estados Unidos da América, a potência líder da Ordem Liberal, o grande Satã ou Satanás.
No final de cada ano, é habitual fazer o balanço escolhendo os acontecimentos que marcaram – positiva e negativamente – os doze meses que findam. Um inventário no qual os aspetos negativos levam a palma aos positivos não apenas porque, por norma, são mais abundantes ou intensos, mas também devido ao facto de a natureza humana ser mais propensa a colocar o enfoque na dimensão negativa. Acontecimentos decorrentes de fenómenos da natureza, mas, sobretudo, de ações humanas.
A História mostra que há ocasiões em que a Humanidade se vê confrontada com trilogias verdadeiramente indesejáveis de que a trilogia negra – guerras, pestes e fome – constitui o exemplo mais elucidativo. Ora, o ano de 2023 foi marcado por uma dessas trilogias tendo o Mundo de Múltiplas Ordens, ainda em formação, sido responsável por dois elementos: o ataque terrorista do Hamas a Israel e a consequente e desproporcionada retaliação israelita, e a continuação do conflito bélico decorrente da invasão russa da Ucrânia.
No primeiro caso, o intuito do Hamas – mas também da Jihad Islâmica Palestiniana e do Hezbollah – é político, mas a motivação é religiosa. A exemplo do que se passa com o Irão xiita, o grande apoiante destes três grupos terroristas, que continua a ver nos Estados Unidos da América, a potência líder da Ordem Liberal, o grande Satã ou Satanás. Um ódio que também se insere na luta pelo controle da Ordem Islâmica. De facto, como prova o discurso crescentemente agressivo de Erdogan, o líder da Turquia, que resistiu às consequências políticas decorrentes dos terramotos e logrou vencer nas urnas, embora apenas à segunda volta, um candidato com uma visão pró-europeia, a luta pela liderança da Ordem Islâmica está em curso.
No segundo caso, no qual o Irão, pelos motivos expostos, desempenha um papel importante na condição de vendedor de armas à Rússia, Vladimir Putin considera que a História está a revelar-se algo lenta no ato de reconhecer a Moscovo a condição de superpotência liderante da Ordem Eurasiana. Daí ter resolvido invadir a Ucrânia como forma de dar uma ajuda à História no sentido de a apressar. Uma invasão que contou com o beneplácito de Pequim, a potência liderante da Ordem da Rota da Seda, que assiste placidamente ao desgaste das outras potências, na esperança de aumentar a sua zona de influência, enquanto sonha com o dito Mundo Harmonioso onde, a pretexto da pós-hegemonia, disponha de condições para impor a sua lei.
Quanto ao terceiro elemento da trilogia, o populismo, marcou claramente a política europeia e teve reflexos a nível internacional, designadamente no continente americano, onde os eleitores, habitualmente, se veem obrigados a optar entre um de dois líderes populistas. De facto, o populismo cultural ou identitário conheceu um crescimento que está longe de poder ser reduzido à vitória do partido unipessoal de Geert Wilders nas eleições legislativas nos Países Baixos ou à chantagem de Vítor Orban no que concerne à política da União Europeia, sobretudo nos assuntos que envolvem a Ucrânia.
Esta modalidade de populismo está a colher junto de uma parte cada vez mais numerosa do eleitorado, tanto no Sul da Europa, onde já governa em Itália e cresce a bom ritmo em Portugal, Espanha e França, mas também nas restantes zonas europeias. Uma lista ampla que, mesmo sem ser exaustiva, não pode ignorar o peso eleitoral da alemã Alternativa para a Alemanha (AFD), dos Democratas Suecos, do Partido dos Finlandeses, do Smer eslovaco e do PIS polaco. Um dado preocupante se for tido em linha de conta que a eleição para o Parlamento Europeu está à porta e outras modalidades de populismo, designadamente o sócio-económico, também esperam engrossar a sua voz em Bruxelas e Estrasburgo. Partidos que, desde há muito, não calam o seu descontentamento face à forma como a União Europeia está a evolucionar.
Face ao exposto, mais do que classificar 2023 como um annus horibilis talvez seja mais correto considerar que se tratou de um ano em que três ordens definiram estratégias visando contrariar a hegemonia norte-americana e a Ordem Liberal. Uma realidade que se deve manter em 2024, tanto mais que para além da mencionada eleição para o Parlamento Europeu, cerca de cinquenta países terão eleições legislativas ou presidenciais. Entretanto, malgrado os apelos, a morte continuará a sua ceifa de vidas na Palestina e na Ucrânia.


