Dia 18 de junho, Dia do Médico… com o SNS em Estado de Sítio…

José Padrão Mendes, Médico Intensivista e Neurologista

Os médicos decidiram vir à luta! O grupo “Médicos em Luta” já veio dizer que a luta por melhores condições e melhores salários vai continuar. Desta vez não vão esperar 18 meses para que as negociações comecem, em julho já se vão notar constrangimentos.

Em Portugal celebramos o Dia do Médico a dia 18 de junho. Como médico e profissional de saúde não tenho muito que celebrar, infelizmente.

Desde há mais de uma década que vemos como o nosso Serviço Nacional de Saúde se vem deteriorando progressivamente e vemos essa paulatina decadência praticamente impotentes não se vislumbrando medidas estruturais para mudar esse rumo.

Nos últimos 10 anos inauguraram-se 32 novos hospitais privados! Mas sabe o leitor quantos novos hospitais públicos abriram? 0, ZERO. O hospital de Lisboa Oriental, a ser construído em Marvila não sai do papel há quase 3 décadas e quando parecia que agora com o PRR íamos finalmente avançar… afinal o projeto do futuro hospital de Lisboa não tem um sistema de segurança antissísmica eficaz… ou seja, vão ter que refazer todo o projeto… para se ter uma noção, este hospital é essencial pois irá substituir seis!! unidades de saúde do centro da cidade de Lisboa, como o São José, Santa Marta, Santo António dos Capuchos, Dona Estefânia, Curry Cabral e Maternidade Alfredo da Costa. E há 1 mês o tribunal de contas chumba este projeto essencial…

O Hospital de Torres Vedras, sendo um hospital que serve uma região de mais de 300 mil habitantes (grande parte do Oeste e algumas zonas de Mafra), não tem condições para receber doentes, chove dentro do hospital, tem zonas completamente decadentes, não tem as dimensões necessárias para atender toda a população que serve e assim não consegue atrair nem manter os tão necessários recursos humanos. Em Torres Vedras, nos últimos anos, os hospitais privados têm vindo a aumentar a sua faturação e importância numa clara demonstração da falência do sistema público de saúde.

Ouvimos todos os dias notícias da desorganização, falência e falta de orientação do nosso SNS. Mudou o partido no governo e a situação apenas piorou. A direção executiva do SNS foi demitida e só agora é que a nova tomou posse. O plano de choque de Verão, resume-se a planos de 1 semana… Não se pode organizar todo um Serviço Nacional de Saúde com planos de semana a semana, ainda para mais no Verão com férias e com os médicos já com as horas extras todas preenchidas.

Nas últimas reuniões com os sindicatos médicos, não entraram nas negociações os salários, a carreira e a volta às 35 horas de trabalho semanais. Assim, não há maneira de atrair profissionais para o SNS. Não se atraem moscas com fel, senão com mel.

Desde 2009, e já contando com os aumentos salariais intercalares do último governo, os médicos ainda assim perdem 16,5% do seu poder de compra (Quebra entre os enfermeiros foi menor: médicos perderam 18% do poder de compra entre 2011 e 2022 – Expresso, Médicos portugueses perderam poder de compra e estão entre os que menos ganham na UE | Saúde | PÚBLICO (publico.pt), Redução de poder de compra de médicos, mesmo com aumento de 2024, ainda é de 16,2% (dn.pt)).

Durante a pandemia da COVID-19, os médicos e os profissionais de saúde foram os profissionais que estiveram na linha da frente, que sacrificaram a sua vida pessoal, familiar e muitas vezes colocaram a sua vida e a dos seus seres queridos em risco e mesmo assim, continuam sem ser devidamente valorizados.

Os médicos continuam a trabalhar sem condições e sem o devido reconhecimento. Já fui ajudar nas urgências de um grande hospital de Lisboa, e a verdade é que o Chefe do Serviço das urgências dorme no hospital durante o fim de semana para que as mesmas funcionem! Até entendo que com o preço a que está o arrendamento e a compra de habitação em Lisboa, esta seja uma boa maneira de poupar dinheiro, mas viver no Hospital para que ele possa funcionar não é a resposta às claras deficiências do SNS.

O SNS sobrevive atualmente devido à abnegação, sacrifício pessoal e familiar e quase sacerdócio dos médicos e profissionais de saúde que todos os dias se levantam e se dedicam a defender a maior conquista de Abril.

Mas quanto tempo este estado de degradação se vai manter?

Os médicos decidiram vir à luta! O grupo “Médicos em Luta” já veio dizer que a luta por melhores condições e melhores salários vai continuar. Desta vez não vão esperar 18 meses para que as negociações comecem, em julho já se vão notar constrangimentos.

Na realidade, a única coisa que os médicos vão fazer é cumprir escrupulosamente com os seus contratos, ou seja, vão gozar os seus dias de folga e férias e não vão fazer mais horas extras do que as que estão estipuladas nos seus contratos. Ou seja, ao cumprir o que assinaram nos seus contratos, vão fazer com o que o SNS entre em colapso.

Se realmente isto não é um problema gravíssimo, não sei o que será…

E para não falar na dedicação plena dos médicos, em que o médico trabalha mais, tem menos tempo livre e menos liberdade e no fim, feitas as contas, ganha menos por hora que os colegas…

Dia 18 de junho é o Dia do Médico, mas não é um dia de celebração… é um dia de luta para salvar o que de melhor temos em Portugal: o nosso SNS!

Seja Apoiante

O Estado com Arte Magazine é uma publicação on-line que vive do apoio dos seus leitores. Se gostou deste artigo dê o seu donativo aqui:

PT50 0035 0183 0005 6967 3007 2

Partilhar

Talvez goste de..

Apoie o Jornalismo Independente

Pelo rigor e verdade Jornalistica