Como se cria a perturbação narcísica?

Bernardo Simões de Almeida

O estigma à volta do narcisismo é cada vez mais prevalente ocupando uma posição de ódio e repulsa, com bastante incompreensão e julgamento veloz, sobretudo no mundo digital das redes sociais onde a partilha de conteúdos ou afirmações subjetivas se confunde com conhecimento e informação. Seja como for, é um tema deveras polémico.

Não quer isto dizer que as pessoas que estão dentro deste quadro de maleita mental possam ser ilibados da responsabilidade que devem ter nas relações que estabelecem com o outro.

É aqui que se deve estabelecer uma separação útil para que se possa compreender a perturbação narcísica. Conforme esta semântica utilizada, e dentro do foro dos profissionais de saúde mental, é assim que é o narcisismo é visto, como uma perturbação.

Em primeiro lugar, há que convir que todos nós temos, dentro das nossas personalidades, alguns traços de narcisismo, que podem ser exacerbados pelo ambiente onde somos criados, que desenvolve um condicionamento genético inato. Começamos a transitar para o conceito de perturbação quando estamos perante uma pessoa que apresenta todo um sistema mal adaptativo, rígido com consequências de sofrimentos para a própria pessoa e com aquelas com quem estabelece relações.

Narcisismo: patologia criada no “Eu interior” com a construção da personalidade

 

Anabela Liberato, psicóloga, com mais de 5 anos de atividade profissional, afirma que no que toca ao ambiente que fomenta e exacerba o narcisismo terá de existir “uma submissão onde aprendemos a relacionar-nos dessa forma, com base na submissão e no domínio”.

Diz a terapeuta que há uma patologia criada no “Eu interior” e a forma como o Self se vê “na base da intimidade e nos vínculos” que gera naquele que padece desta perturbação uma deturpação nas relações com as outras pessoas.

Como é sabido, os nossos anos formadores têm uma importância cabal na construção das nossas personalidade, hábitos e relações. É preciso compreender que não raras vezes, a criança que irá desenvolver a patologia narcísica, começa por ter um cuidador já ele/ela com preponderância para a mesma perturbação.

A forma como a criança entende as chamadas “prendas de amor”, afiança Anabela Liberato, e a promoção da confiança bem como a consistência do amor incondicional, são elementos-chave na sua qualidade e quantidade. Conforme as suas presenças inconsistentes ou nulas no relacionamento entre pais e filhos, a falta destes elementos terá um efeito primordial na criação de um futuro narcísico.

Por outro lado, há um outro fator, também muito comum no desenvolvimento desta perturbação que “é a sensação de grandiosidade”, de que de alguma forma esta criança é especial e desse modo merece mais. “Não é por acaso que estas pessoas são carismáticas e inteligentes, elas têm de ter cargos maiores, o que é uma fantasia”, diz a terapeuta.

No entanto, “esta grandiosidade” é paradoxal com a insegurança vivida nos anos formadores. Um traço menos visível, certamente, até porque o narcísico tem bastante medo da vulnerabilidade e de assumir a imperfeição e o erro, uma vez que o remete para a “sensação de fraude”. Afirma Anabela Liberato que esta é a “base da perturbação narcisista,” o medo e a insegurança.

É muito comum, no contexto terapêutico, que a pessoa com esta perturbação de personalidade tenha padrões muito rígidos que impedem a sua evolução e desenvolvimento, tal é a insegurança e a vontade de controlar tudo à sua volta. É também muito comum, diz a psicóloga, que esta pessoa só fará terapia “por contributo de outra pessoa”, ou seja, se percecionar que as suas relações acabam se nada fizer.

Evitar criar laços

O narcísico evita ter relações profundas com outras pessoas. Conseguem ser pessoas muito sociáveis, mas com relações superficiais onde o desprazer não existe, porque, de acordo com Anabela Liberato, isso “assusta-o”. A razão principal é que os seus traços mais negativos podem ser expostos e a sua fantasia é confrontada com a sua humanidade imperfeita. Dessa forma há um evitamento constante de criar laços e paralelamente existe uma necessidade constante de projetar um falso eu. Um eu que corresponda à fantasia.

Ora, o resultado é, por um lado, uma solidão impeditiva de se identificar com o outro e falar sobre quaisquer problemas que possam advir, porque um grandioso fantasiado, não tem problemas.

Por outro lado, há a pressão constante a que o narcísico se presta para manter a persona, de modo a obter, quer a validação de outrem, quer o controlo absoluto sobre aquilo que dele se pensa.

A isto, reitera a terapeuta, “um narcisista vive com ele mesmo 24 sobre 24” e “não é por acaso que muitas destas pessoas são obcecadas pelo trabalho”. A ligação entre duas facetas inerentes ao perturbado narcísico é o facto deste tem a maior dificuldade em estar sem fazer nada. Tem de se ocupar para evitar pensar sobre si mesmo e revela, em muitos casos, uma agitação constante, que de acordo com Anabela Liberato, leva a um desgaste inevitável.

Solução terapêutica

No contexto terapêutico, o narcísico, que é muitas vezes um desafiador, carrega consigo uma maleita que é frequentemente difícil de modificar, dado o novelo que esta perturbação complica.

Anabela Liberato é da opinião que é um caminho longo e feito com “pequenos passos” uma vez que o narcisismo é “algo estrutural da nossa personalidade”.

O primeiro passo, diz a terapeuta, é a aceitação e autenticidade. Logo a seguir e, a seu tempo, quando a relação com o terapeuta já é percecionada como segura em termos de juízos de valor, é deixar as emoções virem ao de cima e parar de controlar o discurso, ou seja, aquilo que comunica numa qualquer sessão, e a forma como o faz, sem autocensura.

De nada serve “a demonização de um narcísico”. Se o propósito é a reabilitação de um distúrbio de personalidade que é destrutivo nas relações que cria, ele é tanto mais autodestrutivo na primeira e mais antiga relação que o narcísico tem, a que tem consigo mesmo/a.

É, de facto assim que se deve comunicar o narcisismo. Uma personalidade comprometida com a sua infância e com as emoções suprimidas pela persona criada em defesa da sua vulnerabilidade.

No entanto, é preciso ressalvar que o narcísico deve, em prol de todas as relações que tem, tomar consciência da sua perturbação e procurar ajuda antes que as pessoas da sua vida o/a abandonem pelos múltiplos engenhos manipuladores criados para esconder a sua insegurança e medo de ser imperfeito e humano.

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