Rui Gonçalvez

Primeiro Ministro em part-time

Rui Gonçalves, Arquitecto

Bem vistas as coisas, isto é exercer o cargo de primeiro ministro em part- time às segundas, quartas e sextas e ser empresário às terças, quintas e sábados.

Um político sem profissão e sem ganha pão antes, é uma espécie de inválido, que aproveita a atividade política como recurso para sobreviver, perante a incapacidade de criar o seu sustento sem ela e quem não tem profissão nem ganha pão, não tem conhecimento, capacidade e competência para governar o que quer que seja, nem para legislar aquilo que for.

É uma espécie de “pendura” da política, como são muitos dos que por lá gravitam.

Quem assim é, também não tem horizonte para além da política e portanto, resta-lhe ir bajulando o chefe do partido para que lhe faculte um ou outro lugar aqui ou além, neste ao naquele organismo, nesta ou naquela empresa estatal ou municipal, onde vai continuar a vegetar, com a mesma incapacidade e a mesma incompetência, mas safando-se e pronto, pelo menos enquanto der. Gente à beira do abominável.

Admiro por isso as pessoas que têm a sua profissão, seja ela de que ramo for e quem se dá ao trabalho e ao incómodo de constituir empresas, neste país que declaradamente há muito decidiu perseguir empresários, logo aqueles que criam postos de trabalho e riqueza e fazem desenvolver a economia e o país. Admiro as pessoas que têm a capacidade de fazer dinheiro e serem ricas. Dito isto, importa fazer a minha declaração de interesses, que passa por não ser empresário e muito menos, rico.

Quer isto dizer que não tenho a mínima repulsa pelo facto de termos um primeiro ministro que tem uma empresa, ou duas ou três e absolutamente nada contra o facto de termos um primeiro ministro rico, mesmo nada. O que esse primeiro ministro tem que saber e nunca pode esquecer, é que tem que explicar de forma, não apenas clara, mas inequívoca, que tipo de empresa tem, de que área, que negócios faz, com quem faz, quem gere a empresa, etc… e está tudo absolutamente certo.

Se não pode, ou não quer, apenas porque não está disponível para tornar tudo claro e inequívoco e há quem não o possa fazer, ou não o queira fazer, também está no seu direito, mas tem que ter a capacidade de perceber que tem que seguir outro caminho e que não pode ser ministro sequer e muito menos primeiro ministro.

Luís Montenegro, primeiro ministro deste país, achou que era possível ter o melhor de dois mundos, por um lado, continuar a ter uma empresa que presta serviços jurídicos a diversas empresas, entre elas, algumas com interesses e negócios diretos com o Estado e portanto com intereção com o próprio governo e ao mesmo tempo ser chefe desse governo, podendo decidir ou influenciar diretamente a decisão.

Ele não pode, mas ele faz de conta que não percebe que não pode e faz de conta que não acha nomal que não possa. Isto é uma golpada, como muitas outras é certo, mas outros há que as fazem bem feitas e ele não fez isso em tempo útil.

Ter uma empresa que presta serviços na área jurídica, em que tem como sócios a esposa e os filhos (de 18 e 20 anos) e apenas ele é jurista, é fácil de deduzir, sem margem de erro, que ele é o verdadeiro e único ativo daquela empresa, esteja ela em nome do cão, do gato, ou do piriquito e também é fácil deduzir, para quem quiser perceber, que a verdadeira atividade da dita empresa, é aquilo que se denomina por “tráfico de influências”, é sempre bom ter um contacto que se movimenta bem nos meandros da política e sabe onde e como chegar para influenciar esta ou aquela decisão e isso é algum crime? Claro que não, o que não falta por aí são agentes na política que se dedicam a esta atividade de “traficar influências”, são à carradas, mas ele não quis perceber que não podia ser primeiro ministro, uma coisa não é compatível com a outra e Montenegro, porque o sentimento de impunidade a isso o impeliu, quis atingir o pináculo da influenciação, que é, decidir como primeiro ministro, o que mais convém aos respetivos clientes enquanto empresário e ganhar em dois carrinhos.

Bem vistas as coisas, isto é exercer o cargo de primeiro ministro em part-time às segundas, quartas e sextas e ser empresário às terças, quintas e sábados.

Mas como se não bastasse, Montenegro também é irresponsável, porque preferiu faltar a uma cimeira da União Europeia em Kiev, para à mesma hora dar umas tacadas de golfe, ou seja preferiu o prazer ao dever e isto diz muito sobre a apetência do indivíduo para o cargo.

E agora, assistimos às habituais táticas políticas, com o PS em perfeito estado de pânico, sem saber o que fazer, a não aprovar uma “moção de censura” do PCP, porque não lhe convém eleições, a dizer num dia que não quer uma “comissão parlamentar de inquérito”, sugerida pelo Chega, para dois dias depois vir dizer que afinal vai apresentar a tal “comissão parlamentar de inquérito”, porque ainda é o que mais lhe dá jeito, e entretanto o governo reafirma que vai mesmo apresentar uma “moção de confiança” e tirou a tapete aos socialistas, que já percebem que aí vem uma derrota eleitoral quase evidente, mais uma.

E o PSD ganha o quê com isto? É que o povo não gosta de quem provoca crises e na vervade é o próprio governo a provocá-la, ao apresentar a moção de confiança.

Quase certo é que as eleições não venham clarificar nada relativamente à correlação de forças atualmente existente no parlamento e certo mesmo é que vamos estar uns meses sem governo.

Com estes governantes sem pudor, com estes políticos sem escrúpulos, com estas jogadas de bastidores e taticismos políticos, não queriam que o Ventura ganhasse votos? Ahh… ganha ganha, vamos ver se não ganha.

Mas note-se, a tática não tem limites e na politica a verdade só é verdade quando é proferida, depois vem outra verdade e ainda mais outra e o sentido de voto anunciado hoje, não tem nada a ver com o da semana que vem. Até à moção de confiança, até pode nem haver sequer moção.

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