Rui Gonçalvez

“Vergonha alheia” da queda do Governo

Rui Gonçalves, Arquitecto

Foi penoso assistir à forma como o desespero de um primeiro-ministro, com um semblante revelador de total desorientação, o levou a todas as tentativas para chegar pelo menos à fala e a um qualquer entendimento com o seu, até ali, habitual “seguro de vida”, Pedro Nuno Santos / PS, que lhe tirou o tapete de forma ostensiva, sem dó nem piedade.

Já anteriormente escrevi, que Luís Montenegro só tinha a demissão, como saída airosa para o problema que o próprio arranjou, foi ele que o criou e mais ninguém. Na verdade não se demitiu, mas escolheu um caminho muito pior, não para o país, porque entre a demissão e o que aconteceu, obriga igualmente a eleições antecipadas e as consequências são iguais. Mas Montenegro, que esteve muito mal e fez tudo errado neste processo em que se envolveu, arrastou consigo e não tinha esse direito, todo o governo e a estrutura partidária que o apoiava e fê-lo e não devia ter feito.

Quando alguém é eleito presidente do PSD, ou secretário geral do PS, tem que ter a noção de que está sujeito a ser primeiro-ministro a qualquer momento, por qualquer razão, ou por razão nenhuma e como tal tem que preparar a sua vida pessoal, profissional e política para o efeito e Luís Montenegro, por ingenuidade, por distração, por ignorância ou, o mais certo, por estar também ele convencido de que a impunidade o elevaria ao estatuto de ser superior e lhe daria eterna cobertura, não se preparou e foi apanhado numa curva apertadíssima, vindo nas últimas semanas a remendar cada uma das várias ilegalidades à vista de todo o país, sempre empurrado pela oposição e pela comunicação social, que devia saber que está e estará sempre do lado do partido socialista. Não adianta agora pormenorizar as várias emendas feitas à vista de milhões de cidadãos, tendo ficado claro que Montenegro não estava preparado para o exercício do cargo.

Se dúvidas existissem, a forma como ensaiou a apresentação da “moção de confiança”, um evidente “bluff”, em vez de se ter demitido, foi um desastre, demonstrativo de uma enorme imaturidade política. Tentou encostar o inimigo às cordas, saindo o próprio esmagado em toda a linha, mais uma vez ali bem à vista de milhões de telespectadores / eleitores. Foi penoso assistir à forma como o desespero de um primeiro-ministro, com um semblante revelador de total desorientação, o levou a todas as tentativas para chegar pelo menos à fala e a um qualquer entendimento com o seu, até ali, habitual “seguro de vida”, Pedro Nuno Santos / PS, que lhe tirou o tapete de forma ostensiva, sem dó nem piedade.

O que se passou, na 3a feira, na Assembleia da República, no debate da “moção de confiança” apresentada pelo governo e a forma como tudo aconteceu, deve encher de vergonha qualquer português, porque a indignidade revelada pelos intervenientes faz corar qualquer arruaceiro, tal o nível a que se baixou.

O causador foi obviamente o primeiro-ministro, mas a postura do líder do partido socialista e respetiva prol, não dignificaram em nada o partido e pessoalmente os protagonistas, tal o ódio evidenciado em cada intervenção e em cada palavra que proferiram. Na sessão o PS aproveitou a extraordinária ocasião que o primeiro-ministro lhes proporcionou, para se vingar de todos os “favores” que tem feito ao governo no último ano, não de livre e espontânea vontade, mas por que a situação política e as sondagens assim os obrigou e ontem o escape fê-los transparecer a indignidade vergonhosa de que são formatados.

Na sessão de 3a feira ficámos a saber que, independentemente do resultado das eleições antecipadas, estamos entregues à bicharada, com gente cheia de táticas, viciados em jogos políticos que aprenderam nas “jotas”, inapropriados para gente digna, incapacitados para o exercício de qualquer coisa minimamente séria, a não ser a ocupação, apropriação e exploração da “coisa” pública em proveito próprio. Assistir àquele debate, aos comentários consequentes e entrevistas, enche-nos daquela, que vulgarmente denominamos por, “vergonha alheia”.

O país vai ficar ainda mais ingovernável, mas já chegámos ao ponto em que temos legitimidade para questionar se não será melhor não termos governo e deixar andar, afinal já o general romano constatava que “havia ali a oeste da gália” um povo, que não se governava nem se deixava governar, isso mesmo, eramos nós.

Montenegro, enredado neste enorme e nebuloso manto de suspeição, tem o descaramento de ir a votos novamente, esperemos que alguém o chame à terra. De Pedro Nuno Santos, já todos sabemos do que é incapaz, depois da forma leviana e danosa como se comportou como ministro, o que será como primeiro-ministro. Depois do que se passou ontem, com os atuais líderes, PSD e PS ficam institucionalmente incapazes de se tolerarem sequer. Pode o Chega ser o fiel da balança? Pode se…, se aproveitar a ocasião para abandonar os tiques do partido de “protesto” e se afirmar como um partido de “poder”, do ponto de vista ideológico e programático, fazendo a purga que se impõe no grupo parlamentar, substituindo quem tiver que ser substituído, dotando-o de conteúdo político, ético e intelectual, capaz de garantir confiança.

Se considerarmos que os últimos três governos de Portugal, tiveram a duração de três, dois e um ano, estamos conversados sobre a capacidade dos políticos que temos.

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