Um ministro em funções e um ex-ministro que pediu a demissão candidatam-se a secretário-geral do Partido Socialista. Não existem, num partido histórico, outras figuras que não tenham estado ou ainda estejam neste governo morto e sem oxigénio. É estranho e uma lástima.
Pedro Nuno Santos lembra a era socrática, embora seja mais fácil o ouvir, não tem o ego com abcesso, não obstante a vontade de se mostrar como o único herdeiro do século de António Costa, numa versão que se apresenta melhorada. Parece que nunca ali esteve, no poleiro governamental, com pastas e responsabilidades. Ele, Pedro Nuno Santos, o mesmo que, em 2011, disse que Portugal não tinha de pagar as dívidas, que as pernas dos banqueiros alemães podiam ficar gelatina, que se estava a marimbar; e agora, nos pede para esquecermos esse Pedro Nuno Santos e nos concentremos, sobretudo, no Pedro Nuno Santos de 2015 a 2019.
Vamos por partes: Pedro Nuno Santos, que quer ser o próximo primeiro-ministro, não acredita no Pedro de 2011. Só isso faz parar o trânsito político.
A memória tem pernas. Faz meses, não sabia nada da TAP e depois, afinal, já sabia quase tudo no que tocava ao meio milhão da Alexandra Reis. Demitiu-se quando a careca ficou patente. É vida, e vida boa. Comprou, em tempos, um Porsche e gostou de guiar o avião, mas não se sentiu bem por ser uma máquina milionária. Que tinha sido um erro e corrigiu-o; vendeu-o. Que não sei o quê, supérfluo. Enigmas. Concordou, e bem, que um socialista é livre, e se quiser e tiver cifrões, adquirir o automóvel que lhe der na veneta. Não é obrigatório que o socialismo rime com Fiat tipo ou Citrôen. Mas não praticou o que acredita, talvez porque lhe incomodava no que os outros haveriam de pensar; olha este com o cóccix sentado num carro de ricos.
Quer dialogar com o PSD sobre áreas de soberania nacional e respeitar o acordo relativo à metodologia para a escolha da localização do novo aeroporto. É bonito. Também não esconde que nunca deve dizer nunca não, por exemplo, a uma nova geringonça. Resumindo, se não obtiver a maioria absoluta deixa portas abertas para subir ao trono governamental. Há igualmente a possibilidade de perder as eleições legislativas, mas aí para o baile. Pedro Nuno Santos de 2011, de 2015 a 2019, o Pedro que foi ministro e se demitiu, e o Pedro de agora, recusa falar desse cenário.
José Luís Carneiro, que se saiba, não apresenta várias versões de sua pessoa, demonstrou agrado de viabilizar uma aliança com os sociais democratas para evitar que André Ventura possa chegar a ministro, ou a chefe de governo, nunca se sabe.
Será capaz, quiçá, em prol do partido, de aliar-se ao PSD para conservar a vontade de António Costa que era, é e será de, nem por um canudo, ver de perto o Chega. Mas, se José Luís Carneiro se dispõe a sacrificar-se a esse ponto, esqueceu-se que Costa nunca mostrou os dentes a parcerias com o PSD. Disponibilizou-se para debates públicos, ao contrário de Pedro Nuno Santos, que se escuda que é desnecessário dar argumentos à direita para a campanha das legislativas.
O actual ministro da Administração Interna voa longe; não só se dirige aos socialistas como também a todos os horizontes. Os votos que lhe vão servir para ser primeiro-ministro não lhe aparecem só do Largo do Rato, e dessa sede socialista sente-se rijo no ecrã televisivo, julga, ou rasa na verdade, que os camaradas indecisos possam lhe oferecer a cruz no boletim.
Não é o um candidato mediático, não é, o que o favorece por ser o que traz menos polémica, essa polémica que desabou o PS, com esmagadora maioria, numa legislatura que durou dois anos. A experiência de José Luís Carneiro reúne duas décadas na política e, por vezes, esteve nos bastidores. É discreto e não é pessoa para engolir o que quer revelar. Possui uma característica inexistente em Pedro Nuno Santos: perfil de uma esquerda que a direita não torce o nariz.


