Camões. Dia de namorados

Cecília Rezende, Escritora

Dia de namorados é dia de festa e de se comemorar o amor. Mas um pouco à margem, lembremos o grande poeta que magnificamente nos deu o testemunho intenso de um amor verdadeiro, cujo desfecho foi infeliz.

Camões regressava de Macau para Goa quando, na foz do rio Mekong, hoje sul do Vietname, a nau em que viajava sofre um terrível naufrágio de que poucos se salvam. Camões salva-se a si e ao seu precioso poema, Os Lusíadas, mas não consegue salvar a rapariga chinesa de quem gostava, chamada Dinamene.

Dedica-lhe três sonetos repassados de saudade, de amor verdadeiro, de dor e sofrimento.

 

AH! MINHA DINAMENE!

Assim deixaste

Quem não deixara nunca de querer-te!

Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te!

Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já para sempre te apartaste

De quem tão longe estava de perder-te?

Puderam estas ondas defenderem-te

Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte

Me deixou, que tão cedo o negro manto

Em teus olhos deitado consentiste!

Ó mar! Ó céu! Ó minha escura sorte!

Que pena sentirei que valha tanto,

Que ainda tenha por pouco viver triste

ALMA MINHA GENTIL que te partiste

Tão cedo desta vida descontente,

Repousa lá no Céu eternamente

E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

Memória desta vida se consente,

Não te esqueças daquele amor ardente

Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

Alguma cousa a dor que me ficou

Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,

Que tão cedo de cá me leve a ver-te,

Quão cedo de meus olhos te levou.

QUANDO DE MINHAS mágoas a comprida

Maginação os olhos me adormece,

Em sonhos aquela alma me aparece

Que para mim foi sonho nesta vida.

Lá numa soidade, onde estendida

A vista pelo campo desfalece,

Corro para ela; e ela então parece

Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: – Não me fujais, sombra benina!-

Ela, os olhos em mim, cum brado pejo,

Como quem diz que já não pode ser

Torna a fugir-me. E, eu gritando: -Dina…-

Antes que diga-…mene!-acordo, e vejo

Que nem um breve engano posso ter.

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