Bertão, agora com 60 e muitos anos, vivia há cerca de dois anos, numa cabana ao fundo da quinta que em tempos fora dos seus avós. Por compaixão, os novos donos tinham-lhe permitido viver ali e cultivar uma leira, quando ele regressara dos Açores, depois de ter sido expulso dos EUA. Alguns dos mais velhos ainda o conheciam na aldeia, mas contavam-se mais lendas que verdades e o seu passado estava envolto numa espécie de nuvem escura…
Ele, entretanto, habituara-se a falar pouco, preferia a companhia dos animais, e ali vivia, trabalhando a terra, embora sempre disponível para qualquer ajuda aos vizinhos mais idosos. Bertão era um jeitoso, tinha mesmo umas mãos de ouro: tanto consertava um telhado, como reconstruía e pintava casas, compunha canalizações, dava um jeito nas instalações elétricas, cortava lenha, pastoreava ovelhas na serra, cuidava das vacas e dos estábulos, etc.
Enfim, sabia fazer um pouco de tudo, mas a sua grande paixão eram as roseiras que cultivava num pequeno canteiro à porta da cabana.
Certa noite de Inverno, o velho Padre António, seu ex-companheiro de escola, batera-lhe à porta e viera pedir -lhe ajuda, pois tinha chegado uma pobre família estrangeira e ninguém os entendia… só falavam inglês e pouco, mas como Bertão falava bem inglês talvez os pudesse ajudar… e lá foi o Bertão, e ajudou- os e muito! Em breve já lhes tinham arranjado casa, escola para as duas crianças e até trabalho numa fábrica vizinha… toda a aldeia os acolhera, mas Bertão era o intérprete.
Pouco a pouco, Bertão ia sendo cada vez mais apreciado pela disponibilidade com que acorria, pelo seu saber tão variado, mas sobretudo pela sua humildade, pois fazia e logo desaparecia, sem esperar recompensa…as pessoas davam-lhe apenas o que quisessem, porque, para seu grande espanto, ele nunca lhes pedia dinheiro…
O Padre António bem conhecia a verdadeira história de Bertão e várias vezes o convidara a vir até à igreja, mas ele recusava, e virando-lhe as costas, dizia sempre: ‘… não vale a pena, Padre António! Não se preocupe comigo… eu sou uma ovelha tresmalhada há muito…matei e não tenho perdão, tenho de viver e morrer com este peso e esta vergonha até ao fim … ‘.
Entretanto chegara a Primavera, os campos estavam cobertos de espigas e papoilas, as árvores cheias de rebentos e aproximava- se a Semana Santa.
Desta vez, o Padre António queria um ‘Lava-Pés’ diferente e com adultos, em vez de crianças… resolvera ir procurar algumas das suas ‘ovelhas tresmalhadas’ mais distantes da igreja e lembrou -se mais uma vez, de convidar o Bertão. Claro que a resposta foi logo negativa… ‘todos me conhecem, todos sabem o que eu fiz e não tenho roupa decente, além disso nunca vou à igreja… o quê que eu lá vou fazer…?’
Com infinita paciência, o Padre António explicou- lhe que o podia confessar e libertar daquele peso, que Deus o amava e lhe queria perdoar tudo…a roupa não era problema…arranjava -se com facilidade… e falou-lhe claramente no assunto que Bertão guardava consigo e lhe queimava o peito: ele bem sabia o que tinha sido a adolescência de Bertão nos EUA depois da morte inesperada da mãe, quando o pai o viera buscar à aldeia, o levara à força para uma terra desconhecida e sem amigos…
E como, passados alguns anos de fracasso escolar, vadiagem e muita tareia, sem rumo certo na vida, o pai, furioso, o pusera fora de casa e como fora fácil então meter -se no mundo da droga…o Padre António bem se lembrava do Bertão criança – o Bertinho, sempre dócil, frágil, tão protegido pela mãe e pelos avós!- lembrava- se de que ele nunca fora um miúdo violento, muito pelo contrário…mas sabia que , sob efeito da droga e do álcool, em certa noite de desmandos, ao tentar fugir da polícia , ele tivera o azar de atropelar uma pessoa que morrera por sua causa…depois, tinha sido a pena de prisão, a dureza de tantos anos sem amigos e sem família, em seguida a expulsão dos EUA para os Açores, a chegada à terra do pai, onde não conhecia ninguém e se sentira sempre um estranho… até que se lembrara de regressar à aldeia transmontana da mãe e dos avós… Ali, só os mais velhos se lembravam do Bertinho, agora um homem encorpado e solitário, a quem chamavam Bertão…
Depois de vários dias de insistência, o Padre António desistira do convite, com grande pena, e acabara por dizer ao sacristão para se preparar porque, se calhar, ainda teria de o chamar para ser o 12 o no grupo do lava-pés.
Porém, na véspera da cerimónia, o padre António fez uma última tentativa para o integrar nas celebrações da Páscoa. E enviou-lhe o filho mais novo da família estrangeira a pedir se lhe oferecia algumas rosas brancas do seu canteiro para enfeitar a igreja na Quinta-Feira Santa. Arreliado com o padre António e farto dos seus recados insistentes, Bertão mal entreabrira a porta à criança e, desabridamente, dissera-lhe que não o podia atender naquele momento.
No dia seguinte, levou o rebanho de ovelhas, como de costume, para a serra, mas perto das cinco da tarde começou a ouvir o repicar dos sinos da aldeia e pensou com os seus botões:’… que diabo, também o que me custa levar lá umas rosas??? Coitado do padre António… ele é bom tipo e até me tem querido ajudar…’
E rapidamente, reuniu as ovelhas, levou-as serra abaixo, fechou-as num dos campos mais próximos, correu para casa e com a tesoura de poda, rapidamente, arranjou um belo ramo de rosas…
Todo transpirado e cansado, lá se pôs a caminho, entrou na igreja com as rosas na mão, tirou o boné, fez um vago aceno ao Padre António e este sorrindo, saiu do lugar, interrompeu a homilia, dirigiu-se-lhe pela coxia fora, abraçou-o, e disse-lhe a meia voz:
‘Bem-vindo, caro Bertão! ora vem e senta-te ali ao pé de mim… íamos mesmo agora começar a cena do lava-pés … e eu precisava tanto de uma 12 a pessoa…obrigado pelas rosas tão bonitas! Já as vamos colocar numa jarra!’ E piscando o olho ao sacristão, pediu-lhe que tratasse das flores …
A cerimónia continuou então e quando chegou a sua vez, Bertão, cheio de vergonha fez o mesmo que os seus companheiros: descalçou uma bota e uma meia e com o pé bem sujo de terra, e os olhos rasos de lágrimas, deixou que o velho padre António lhe lavasse o pé e o beijasse…
Nesse fim de tarde, quando já todos voltavam para suas casas, o Padre António convidou Bertão para jantar em sua casa. Ali ficaram os dois em longa conversa. Ninguém assistiu. Ninguém soube o que se passou, mas altas horas da noite, alguns vizinhos curiosos, pela janela de suas casas, viram os dois a saírem, sorridentes, da igreja.
Ao regressar à sua humilde cabana, naquela noite, Bertão era um homem diferente. Olhava o céu cheio de estrelas, e comovido, aliviado e grato, sentia- se rejuvenescido… era Páscoa! E há muito que ele não sabia o que isso era…


