A Missa Fadista Cantada na Basílica dos Mártires emocionou Lisboa. Uniu espiritualidade, tradição e cultura viva

Maria Sobral Mendonça, Pintora

Fé, Arte e Alma Portuguesa no Chiado

Lisboa viveu, na tarde de ontem, um daqueles momentos em que a fé se confunde com a arte e a música se transforma em oração.

Pelas 17h45, a Basílica de Nossa Senhora dos Mártires, no coração do Chiado, acolheu uma Missa Fadista Cantada, celebrada pelo Cônego Armando Duarte, com a voz inconfundível de António Pinto Basto a interpretar o Pai Nosso.

Acompanhado por guitarras e duas vozes adicionais, o fadista deu corpo e alma a uma celebração única, que tocou lisboetas e estrangeiros, reunidos sob a abóbada barroca de um dos templos mais simbólicos da cidade.

Maria Sobral Mendonça, pintora, iniciou o ciclo de Tertúlias Arte na Benard no Chiado. Créditos da foto: Nuno Albuquerque

O Encontro entre Fé e Fado

O Chiado deteve-se. O murmúrio das ruas deu lugar à sonoridade do fado que, pela voz de António Pinto Basto, se elevou num gesto de devoção e identidade. O fado, expressão maior da alma portuguesa, encontrou ali o seu eco espiritual — um diálogo íntimo entre o humano e o divino, entre a saudade e a esperança.
Mais do que uma celebração litúrgica, o momento representou uma comunhão de linguagens: a fé e a arte, o passado e o presente, o sagrado e o popular.

O fadista, agora também candidato à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior pela coligação “Por Ti Lisboa – Moedas 2025” (PSD, IL e CDS), sublinhou com esta iniciativa “o valor da cultura como elo de união comunitária, reforçando a importância do Chiado como espaço de encontro, história e expressão viva da cidade”.

A Basílica dos Mártires: História e Devoção

A Basílica de Nossa Senhora dos Mártires é uma das mais antigas paróquias de Lisboa, símbolo da fé e da memória da reconquista cristã. A sua origem remonta a 1147, quando, após o Cerco de Lisboa, D. Afonso Henriques mandou erguer uma pequena ermida em honra dos cruzados que tombaram durante a tomada da cidade.
Segundo a tradição, o rei lançou a pedra inaugural da ermida em 21 de novembro desse mesmo ano, cumprindo uma promessa de gratidão à Virgem Maria — um gesto fundador que ecoa na identidade espiritual da capital.

O terramoto de 1755 destruiu o antigo templo, mas, no espírito de reconstrução pombalina, a atual Basílica foi edificada por Reinaldo Manuel dos Santos e inaugurada em 1784. O seu interior é um testemunho da arte portuguesa do século XVIII, com pinturas de Pedro Alexandrino de Carvalho, retábulos dourados e o órgão de Machado e Cerveira, que conferem ao espaço um esplendor sereno e atemporal.

Entre as suas relíquias, destaca-se a pia batismal sobrevivente ao terramoto, onde foi batizado Fernando Pessoa, reforçando o vínculo entre a fé e o génio criador lisboeta.

Lisboa, Cidade que Sabe Receber

Lisboa continua a saber receber quem a visita — com a hospitalidade de quem vive entre colinas e memórias. A cidade manifesta-se em linguagens contemporâneas, mas mantém a alma das suas origens. O Chiado, coração artístico e literário, é palco dessa síntese perfeita: entre os monumentos, museus e cafés históricos, multiplicam-se vestígios do seu passado e sinais da sua vitalidade presente.

Na pastelaria Benard, por exemplo, a pintura “Cerco de Lisboa, 1147” recorda a conquista da cidade, ligando o quotidiano moderno à história fundadora de Portugal. Essa harmonia entre o gesto artístico e a tradição é a própria essência de Lisboa — uma cidade onde o património cultural continua vivo, manifestando-se na fé, na arte e na criação.

Entre Fé e Fado, o Espírito de uma Cidade

Missa fadista na Basílica dos Mártires. Créditos da foto: Nuno Albuquerque

A Missa Fadista Cantada na Basílica dos Mártires foi mais do que um evento religioso: foi um testemunho da alma portuguesa em movimento, onde o fado se transformou em prece e a arte encontrou o seu altar.
Lisboa reafirma-se assim como cidade universal, capaz de unir o passado e o futuro, a emoção e a razão, a devoção e a criação — num só gesto, num só som, numa só alma.

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