O sistema educativo acaba, assim, por reproduzir perceções divergentes sobre igualdade e experiências diferentes dentro do próprio sistema. Na verdade, as escolhas educativas continuam fortemente influenciadas por estereótipos de género, amplificados por dinâmicas sociais e digitais. Entre os jovens cresce também um fosso de perceções sobre a igualdade, alimentado por narrativas que circulam livremente no espaço digital.
Vivemos um tempo exigente para a democracia e para a igualdade. Entre discursos regressivos, estereótipos persistentes e algoritmos que amplificam narrativas nas redes sociais, multiplicam-se os sinais de alerta. O que está em causa não são apenas perceções ou debates públicos: são direitos, oportunidades e escolhas que continuam a ser moldados por desigualdades que julgávamos já ultrapassadas.
Três quartos da população mundial vive hoje sob lideranças autocráticas. Hungria, Turquia e até os Estados Unidos mostram a fragilidade das suas democracias através de movimentos de repressão dos direitos das mulheres.
Assistimos hoje a um ataque generalizado aos direitos, com a ajuda dos algoritmos nas redes sociais, que condicionam comportamentos das novas gerações e as fazem acreditar que o lugar da Mulher é em casa, reduzida à expressão de “empregada” da família e do seu esposo.
Os números são claros. O relatório Gender Equality Index 2025 aborda o impacto das dinâmicas digitais, dos estereótipos e das narrativas online que influenciam as escolhas educativas de mulheres e homens.
Sabe-se: conteúdos digitais e estereótipos reproduzidos em ambientes on-line podem reforçar desigualdades educativas entre géneros. É por isso que os rapazes escolhem frequentemente as STEM, a tecnologia, a IA ou as finanças, enquanto as raparigas, por sua vez, optam mais por humanidades, educação, saúde ou cuidados.
A manutenção destes estereótipos afeta a confiança académica, condiciona as escolhas de cursos, molda expectativas de carreira e, no fim da linha, reflete-se também nas reformas, já que as profissões mais escolhidas pelas raparigas são, em geral, menos bem remuneradas.
O estudo reafirma que a segregação de género, especialmente nas áreas tecnológicas, nada tem que ver com capacidade académica. Raparigas e Rapazes têm desempenhos semelhantes em matemática e ciência na escola. No entanto, ao longo do tempo, as raparigas vão perdendo interesse nas áreas STEM. São as expectativas sociais, as normas culturais e a influência do ambiente educativo e social que acabam por condicionar as suas escolhas.
Mas se é grave que, apesar de sucessivos relatórios europeus e internacionais apontarem todos neste sentido, as políticas públicas desenhadas e ou implementadas não tenham tido capacidade para inverter estes ciclos; é igualmente grave que, nos ambientes digitais, as narrativas online estejam a reforçar as desigualdades.
O relatório refere mesmo um crescimento de exposições regressivas sobre género entre jovens, especialmente entre jovens homens, muitas vezes difundidas em espaços on-line.
Essas mensagens questionam ou rejeitam a igualdade de género, reforçam papéis tradicionais de homens e mulheres e influenciam perceções sobre educação e carreira.
E se nada se fizer… se continuarmos a assistir a estas problemáticas de braços cruzados, o desfecho é claro, e poderá ser muito mais duro do que se imagina. “Tempos sombrios”, estes.
Uma das curiosidades deste estudo é a diferença de perceção entre jovens mulheres e jovens homens. 25 % das mulheres jovens (entre os 15 e os 24 anos) acreditam que os homens são tratados melhor na educação, enquanto apenas 15 % dos jovens homens partilham essa perceção.
O sistema educativo acaba, assim, por reproduzir perceções divergentes sobre igualdade e experiências diferentes dentro do próprio sistema. Na verdade, as escolhas educativas continuam fortemente influenciadas por estereótipos de género, amplificados por dinâmicas sociais e digitais. Entre os jovens cresce também um fosso de perceções sobre a igualdade, alimentado por narrativas que circulam livremente no espaço digital.
Ignorar estes sinais seria um erro grave. Porque quando as desigualdades se normalizam no discurso público e nas plataformas digitais, acabam por se instalar também nas escolhas, nas oportunidades e, inevitavelmente, no futuro.
No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, importa lembrar que nenhum direito é definitivo e que nenhuma igualdade está garantida para sempre.
Sempre que surgirem retrocessos, sempre que a desigualdade persistir, estaremos lá para afirmar, sem hesitação, que a luta pelos direitos das mulheres é também a luta pela democracia.
E essa luta só terminará quando a igualdade for, finalmente, plena.


