Federar mulheres pode ser uma estratégia silenciosa, mas extremamente eficaz. Porque quando as mulheres se conhecem, se reconhecem e se apoiam, deixam de estar isoladas e passam a fazer parte de uma rede que lhes dá força, segurança e voz.
O Dia Internacional da Mulher é, muitas vezes, marcado por discursos repetidos, estatísticas e declarações de intenção. Mas talvez este seja também um momento para olhar para uma realidade que durante muito tempo passou quase despercebida: o crescente protagonismo das mulheres em espaços políticos que durante décadas foram vistos como predominantemente masculinos.
Durante muito tempo, a narrativa dominante sugeriu que a participação feminina na política estava sobretudo associada a determinados campos ideológicos. Contudo, a realidade tem vindo a demonstrar que as mulheres estão hoje presentes em todas as correntes do pensamento político — e que também na direita há cada vez mais mulheres preparadas, determinadas e dispostas a assumir responsabilidades públicas.
Em Portugal, tal como noutros países europeus, muitas dessas mulheres têm feito o seu caminho de forma discreta. Longe do ruído mediático, têm surgido redes de colaboração, projetos de formação e espaços de encontro que permitem criar confiança, partilhar experiências e incentivar novas lideranças femininas.
Esse trabalho raramente aparece nas manchetes. Mas tem produzido efeitos reais.
Ao longo dos últimos anos, várias iniciativas de formação política e de mobilização cívica mostraram que quando as mulheres encontram espaço para aprender, debater e apoiar-se mutuamente, muitas ganham a confiança necessária para entrar na vida pública, participar em projetos políticos ou assumir funções de liderança.
A importância desse caminho foi, aliás, sublinhada pelo recentemente falecido Nuno Morais Sarmento, defensor militante da participação feminina na vida política. Numa conferência dedicada a este tema, para a qual tive a feliz ideia de o convidar como orador de referência, recordando o percurso histórico do seu partido nesta matéria, afirmou:
“O meu partido foi, durante décadas, o partido que liderou a luta pela participação social e política das mulheres e, principalmente, em funções que não fossem as tais que se admitia poderem não ser exclusivamente masculinas. Mas é igualmente verdade que a partir de determinada altura este partido perdeu esse ímpeto. É importante refletir sobre isto quanto mais não seja porque este caminho não foi trilhado ao acaso, foi-o porque se pensou, se trabalhou, se acreditou que era importante para a sociedade. Perdemos a memória deste caminho. Entristece-me que o PSD tenha perdido essa marca de água. Uma marca de água que foi construída ao longo de várias décadas com um trabalho persistente de várias mulheres e homens.”
Federar mulheres pode ser uma estratégia silenciosa, mas extremamente eficaz. Porque quando as mulheres se conhecem, se reconhecem e se apoiam, deixam de estar isoladas e passam a fazer parte de uma rede que lhes dá força, segurança e voz.
Num tempo em que tantas vezes se tenta dividir ou rotular as mulheres na política, talvez seja importante recordar que o verdadeiro progresso acontece quando existem condições para que todas possam participar — independentemente das suas convicções políticas.
No plano internacional, há também exemplos de liderança feminina que demonstram que as mulheres podem afirmar-se em qualquer espaço político. Um desses exemplos é o de Giorgia Meloni, atual primeira-ministra de Itália.
A sua chegada ao poder marcou um momento histórico: pela primeira vez uma mulher lidera o governo italiano. Mais do que um símbolo, a sua trajetória demonstra que a liderança feminina pode afirmar-se com convicção, identidade política e capacidade de mobilização.
A própria Meloni tem sublinhado a importância de as mulheres assumirem plenamente o seu papel na sociedade, afirmando que “cada mulher deve ser livre de construir o seu próprio caminho e de demonstrar o seu valor através das suas escolhas e do seu trabalho.” A sua presença no topo da política europeia mostra que as mulheres podem liderar mantendo a sua identidade, as suas convicções e a sua visão sobre o futuro das sociedades.
No Dia Internacional da Mulher, talvez seja tempo de reconhecer uma realidade simples: as mulheres não pertencem a um único espaço político, nem precisam de autorização para participar na vida pública.
Quando as mulheres se organizam, criam redes e assumem liderança, deixam de ser exceção — tornam-se parte da mudança.
Porque quando as mulheres se apoiam e caminham juntas, deixam de pedir espaço — e passam simplesmente a ocupá-lo.


