E ela admirava sobretudo a mãe e a avó. Eram mulheres de muita ‘garra’!
Grandes mulheres, heroínas anónimas, por certo como tantas outras, mas aquelas eram as que conhecia de perto: a sua avó e a sua mãe!
– “Nem pensar! Nesta loja não mudas nada enquanto formos vivos, depois, quando o avô e eu morrermos, logo fazes tudo o que quiseres…” – disse-lhe a avó num tom irritado.
Silencioso, o avô levantou os olhos do livro de palavras cruzadas, olhou fixamente para Conchinha, mas nada disse…
Uma vez mais, havia um muro entre avó e neta.
Era assim que terminavam todas as tentativas de Conchinha no sentido de convencer os avós a modernizarem a sua velha loja de botões, carrinhos de linhas, fechos e pouco mais…
A retrosaria já tinha tido melhores dias, mas agora estava à beira da falência.
Conchinha afastou-se, triste e pensativa. Não tinha feitio para discussões, mas esta não era a única batalha com os avós, com quem viera viver dois anos antes.
Lembrava-se bem daquele dia 8 de março, Dia da Mulher! À saída do aeroporto, comprara um pequeno ramo de flores para felicitar a avó, mas logo à chegada a casa, apesar das manifestações de carinho e das saudades, a avó não se contivera sem criticar de imediato, o aspeto da neta que não via há alguns anos. O avô ria, mas a avó logo lhe dissera, mirando-a de alto a baixo:
– “Conchinha, que te fizeram? Rapaste o teu lindo cabelo preto, e agora pintaste-o de azul? E esses ‘coisos’ pendurados no nariz e nas orelhas? Mais essas tatuagens nos braços… E as calças todas rotas??? Ai, minha querida neta… mas como é possível? O que te fizeram? Que modas são essas? Não sei como os teus pais deixam que andes assim!!!”
Conchinha não esperava aquela receção…fora o primeiro choque!
Deixara os pais no Luxemburgo e resolvera vir ajudar os avós, enquanto se matriculava no curso de vitrinista numa escola de formação profissional. Não quisera tirar um curso universitário, ansiava pela sua independência, queria muito trabalhar e sabia que os avós precisavam de ajuda na retrosaria, pois o avô estava há vários anos numa cadeira de rodas e a avó, embora mais nova, dava já sinais de alguma dificuldade motora e muito cansaço. A decisão de vir para Portugal ajudar os avós agradara a todos!
E Conchinha estava contente, porque à medida que o tempo ia passando, iam-se adaptando uns aos outros e aquelas trocas de ideias eram como que uma educação recíproca. No fundo ela sabia que os avós se sentiam felizes com a sua presença!
Enchera a casa de frescura com a sua juventude e disponibilidade, era uma cara alegre e sorridente, e muitas vezes tocava viola e cantava para gáudio dos avós e dos vizinhos.
Contudo, era difícil ajudar a avó, que continuava uma lutadora autoritária como sempre fora…só ela sabia como tratar da casa e da loja , e assim, diariamente, teimava em ser ela a abrir a porta bem cedo para atender as fiéis freguesas… estas porém já escasseavam, não só pela idade, mas também porque a retrosaria não oferecia novidades, nem atraía pelo aspeto – era agora uma pequena loja escura e sem graça, com forte cheiro a mofo, paredes enegrecidas pelo tempo e janelas fechadas há uma eternidade.
Muita gente passava à porta, mas nem olhava para a montra.
Prestes a terminar o curso de vitrinista e com experiência de pequenos ‘part-times’ em lojas de moda no Luxemburgo, Conchinha propusera aos avós várias remodelações: era necessário fazer a substituição da montra, da porta e colocar novas janelas, dar uma pintura geral em tons alegres, arranjar novas bancadas e prateleiras, e roupas modernas para expor na montra, que atraíssem compradoras mais jovens…e não era preciso gastar muito dinheiro! Ela sabia como fazer…
Os avós, porém, sempre resistiam, sobretudo a avó, invocando demasiadas despesas e dizendo que essas alterações ‘estragariam’ a sua querida e velha retrosaria, montada e mantida com tanto sacrifício ao longo dos últimos quarenta anos… e nunca iria vender “essas roupas horríveis de que tu gostas!”
Para aquele casal vindo da aldeia nos anos 70, para trabalhar na cidade – ele como marçano numa mercearia, e ela como empregada-a-dias – ambos a viverem num pequeno quarto alugado, com a filha única pequenita, sob a proteção apenas de um padrinho da mesma terra, a abertura da modesta retrosaria, alguns anos depois, tinha sido uma arriscada aventura …
O trabalho fora imenso, e todos os tostões tinham sido ganhos com horas extra na padaria do padrinho e com os engomados que a avó fizera pela noite fora, durante meses e anos…
Conchinha bem sabia o que os avós tinham passado, pois a mãe nunca lhe escondera a sua infância pobre e difícil.
E ela admirava sobretudo a mãe e a avó. Eram mulheres de muita ‘garra’!
Grandes mulheres, heroínas anónimas, por certo como tantas outras, mas aquelas eram as que conhecia de perto: a sua avó e a sua mãe!
O avô, em determinada altura, fora trabalhar nas obras em Angola, para ganhar um pouco mais, mas logo apanhara umas febres, regressara muito doente e ficara incapacitado numa cadeira de rodas pouco tempo depois… por isso, quem sustentara e aguentara a família, a casa e a loja, aproveitando todos esses trabalhos extra, sem descanso e sem férias, de dia e de noite, tinha sido a avó, e a mãe embora ainda pequena, sempre ajudara, ao regressar da escola, como pudera, em casa ou na loja.
Por isso, quando Conchinha via a avó zangada por causa da loja, calava- se e logo a seguir, pesarosa, ia abraçá-la e dizia-lhe apenas:
-“Avó querida, não te zangues… a retrosaria não há de morrer , e nós duas pensamos de modo diferente, mas não tem mal… somos muito amigas ! Vá lá, acalma-te e vai lá conversar com o teu amigo Jesus!”
Este era mais outro motivo de choque. Os avós eram muito religiosos, não falhavam à Missa dominical e rezavam até na loja quando não havia fregueses, mas Conchinha não ligava… deixara de ir à igreja ao terminar a catequese de infância lá no Luxemburgo, para grande desgosto da avó, que sempre lhe mostrava uma velha imagem da Sagrada Família, colocada na parede da retrosaria, em lugar bem visível, e lhe pedia que nunca a tirasse dali. Conchinha ria- se e prometia que ali ficaria para sempre, ali, “ou noutra parede”, acrescentava com sorriso maroto…mas comovia- se e admirava a fé dos avós. Talvez eles tivessem razão…
Uma manhã, porém, a avó não conseguiu sair da cama. Queixava-se de enjoos, de forte dor no peito e um braço dormente. O avô assustado, chamou a neta e esta, percebendo a gravidade da situação, de imediato desconfiou de um ataque de coração e chamou uma ambulância para a levar ao hospital.
Foram dias de grande susto, mas a avó foi bem tratada e ao fim de três dias pôde regressar a casa com medicação para o coração e fortes recomendações de repouso. Ficara visivelmente, mais frágil.
Conchinha tornou- se então a mulher da casa, e era incansável. Ora tratava da avó, ora do avô! E ainda conseguia manter a loja aberta, por umas horas, só para fazer a vontade à avó.
Corria-lhe no sangue a mesma força, determinação e coragem da avó e da mãe, e os avós iam dando conta da transformação da neta. Era agora uma mulher feita, em quem confiavam para tudo! Que seria deles sem a Conchinha?
Algumas semanas mais tarde, os avós chamaram-na e disseram-lhe que estava na hora de ser ela a dona e senhora da retrosaria! Podia fazer o que quisesse, que eles ajudariam com as suas economias.
Conchinha, incrédula, abraçou-os agradecida, dizendo com carinho:” A retrosaria não há de morrer… vão ver e vão gostar! Acreditem em mim!”
Os avós acreditaram… e vários meses passados, numa data simbólica – 8 de Março, Dia da Mulher! – a retrosaria reabria ao público depois de várias obras de remodelação … muita coisa fora dada muitas outras tinham sido deitadas para o lixo, a pintura das paredes fora feita pela própria Conchinha e por alguns amigos da escola; havia agora roupas à venda em segunda mão, mas todas em óptimo estado e oferecidas por vizinhos e havia mesmo pequenas novidades para gente nova…
A imagem da Sagrada Família, com uma nova moldura a condizer com a cor alegre das paredes, lá estava no lugar destacado de sempre…para alegria e tranquilidade dos avós!
Dentro da loja, avós e neta acolhiam e ofereciam bombons a cada visitante!
Até os pais de Conchinha tinham vindo de propósito do Luxemburgo trazendo novidades para a inauguração da loja!
Entreolhando-se, comovidos e orgulhosos, por verem aqueles três tão contentes a darem boas-vindas aos passantes, os pais de Conchinha, comentavam entre si como tudo mudara: a filha estava tão diferente da miúda alternativa que os tinha deixado, mas os avós também tinham rejuvenescido apesar dos embates, dos sustos e da idade…
Na verdade, aquela convivência inter-geracional tinha sido um bem! Ali estavam à vista os frutos de uma educação recíproca tão benéfica!!!


