No último almoço das Conversas no Dom Carlos no passado dia 5 de dezembro, sexta-feira, em Cascais, foi orador Afonso Moura, geopolitólogo e doutorando na Universidade de Coimbra. Nesta intervenção fez uma abordagem ao posicionamento da União Europeia num “mundo multipolar”, uma análise à dinâmica entre Estados Unidos, China e Rússia, e as implicações para a Europa no contexto geopolítico atual com base no seu último livro ” Operação militar especial”. A Rússia invadiu a Ucrânia, surpreendendo a maioria. Afonso Moura, no entanto, não foi um dos surpreendidos. O encontro é uma organização de Luís Gagliardini Graça.
Afonso Moura, investigador da Universidade de Coimbra, sobre o xadrez da Geopolítica Moura actual tem uma definição e perspetiva pessoal: assume uma “distinção fundamental entre Europa e União Europeia”, acredita que a “segunda não é um estado soberano, ao contrário de outras grandes potências globais.” O orador convidado das conversas do Dom Carlos, o comentador da SIC Notícias e no Canal NOW, segue a tradição do realismo político, influenciado por Tucídides, Maquiavel e Thomas Hobbes.
Defende que a geopolítica é uma “arte” que cruza várias ciências, permitindo uma visão específica do mundo.
A abordagem realista de Moura apoia-se numa narrativa histórica-política, onde cada um dos pensadores da “Santa Trindade Realista” fornece um pilar conceptual: Tucídides (estrutura histórica), Maquiavel (essência da política) e Hobbes (estrutura moderna de poder).
Ordem mundial Tripolar
Segundo Moura, “não vivemos num mundo bipolar”, mas antes “vivemos numa ordem tripolar, composta pelos Estados Unidos, China e Rússia”. Sai da visão dominante de que o mundo é apenas bipolar (EUA vs. China) e alerta contra a redução da geopolítica a uma lógica meramente económica.
Para o geopolitólogo a Rússia, apesar de ter uma economia mais frágil, “detém trunfos geopolíticos que lhe conferem um papel de relevo”. Faz referência ao conceito de “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia e compara com a retórica americana na invasão do Iraque, analisando “a manipulação jurídica dos conceitos de guerra”.
Direito Internacional vs. Geopolítica
Apesar de se inserir na corrente realista, Moura defende a existência e importância do Direito Internacional, alerta para a evolução de um direito internacional clássico (centrado nos Estados) para um direito cosmopolita (que inclui indivíduos como sujeitos parciais do direito internacional).
A União Europeia: diversidade interna e falta de unidade
Afonso Moura salienta que não existe uma verdadeira política externa comum europeia. Diz que existem “profundas diferenças” entre os Estados-membros: entre uma “Europa atlântica e uma Europa romano-germânica; entre Norte e Sul, Leste e Oeste. Ressalta que é ilusório pensar numa posição europeia unificada sobre temas críticos.”
Através da história, mostra como as tentativas de União Europeia sempre falharam ou foram impostas por potências como Napoleão ou Hitler. Conclui que os derrotados “dessas tentativas foram sempre alianças externas como o Império Britânico, EUA ou Rússia.”
Principais conclusões da palestra
A Europa e a União Europeia não são sinónimos; vivemos numa ordem mundial já tripolar (EUA, China, Rússia).
A União Europeia não tem uma “política externa comum real”. O Direito Internacional continua relevante, apesar dos abusos. Enquanto a Índia surge como um novo polo relevante. A NATO perdeu o rumo estratégico após a Guerra Fria. Sobre a paz na Ucrânia “só será possível com reconhecimento dos equilíbrios regionais existentes.”
O seu ultimo livro ” Operação militar especial”, o dia 24 de fevereiro de 2022 ficará marcado na história. A Rússia invadiu a Ucrânia, surpreendendo a maioria. Afonso Moura, no entanto, não foi um dos surpreendidos. Já em 2017, em outro ensaio, ele alertou sobre as crescentes tensões entre os Estados Unidos e a Rússia em relação ao futuro da Ucrânia e da ordem mundial. Moura previu que a Rússia optaria pela batalha, em vez de se submeter.
Este ensaio aborda temas visíveis, como o militar e o jurídico, mas vai além. Ele explora questões comerciais, geopolíticas, civilizacionais, religiosas e filosóficas. Poucos conhecem a Rússia e as forças que a impulsionam. Vladimir Putin é analisado à luz de líderes históricos que moldaram sua visão de mundo. Desde a estratégia bélica até a escatologia cristã, do direito internacional à filosofia política, o ensaio não deixa nenhum tema de fora.


