Venezuela

Nuno Lumbrales, Advogado

Num plano mais global, importa ter em conta que a Venezuela é aliada da Rússia, da China e do Irão, e que desde o início da guerra da Ucrânia, este é já o terceiro país ligados ao chamado «eixo do mal» que é atacado sem ser auxiliado (depois da Síria e do próprio Irão).

Em mais um episódio da corrente tentativa de instalação de uma nova ordem internacional, os EUA atacaram militarmente a Venezuela, bombardearam vários alvos militares e estratégicos, capturaram o presidente do país e a respectiva esposa, que prenderam e se preparam para julgar sob acusações de tráfico de droga internacional.

O pretexto é o tráfico de droga, a razão, aliás indisfarçada, são os direitos de exploração do petróleo venezuelano, tanto assim que os EUA já esclareceram que vão assumir o controlo da Venezuela por tempo indeterminado, para reconstruir a indústria petrolífera do país, através de empresas americanas.

A ilegalidade da operação é manifesta, quer à luz do direito internacional quer, provavelmente, à luz do próprio direito interno dos EUA, mas este tipo de intervenções norte-americanas foi relativamente comum, na América do Sul, durante o Século XX, e a administração Trump não parece muito preocupada com este aspecto.

Independentemente disso, para a Venezuela, as consequências ainda não são previsíveis com segurança.

Se tudo correr pelo melhor, haverá daqui a algum tempo uma substituição do regime venezuelano para a oposição democrática, sem mais derramamento de sangue. Isso significará o domínio americano sobre o petróleo venezuelano, mas também, o que não é de somenos, a instalação de uma democracia no país, e um substancial aumento da qualidade de vida dos cidadãos, que actualmente vivem na miséria.

Mas se as coisas não correrem bem, o país pode mergulhar numa guerra civil multilateral, entre militares venezuelanos, forças dos EUA e/ou das várias facções da oposição, movimentos guerrilheiros, criando uma situação de prolongada guerra civil, similar a outras já ocorridas na América do Sul. Esperemos, por todas as razões, que não seja este o caso.

Num plano mais global, importa ter em conta que a Venezuela é aliada da Rússia, da China e do Irão, e que desde o início da guerra da Ucrânia, este é já o terceiro país ligados ao chamado «eixo do mal» que é atacado sem ser auxiliado (depois da Síria e do próprio Irão). Pelo contrário, a Ucrânia tem recebido forte apoio dos seus aliados ocidentais e de outros países, mesmo depois do início da administração Trump, e vai conseguindo defender-se da Rússia não obstante a longa duração da guerra. Isto deverá ser objecto de reflexão em todos os países, especialmente na América do Sul.

É notória a incapacidade e/ou falta de vontade da China e da Rússia de apoiarem militarmente os seus aliados. Provavelmente, os EUA continuarão a ser o único país capaz de – com auxílio dos seus aliados – projectar poder de forma eficaz por todo o globo, e assim continuarão a ser a única potência verdadeiramente mundial. Seja por incapacidade, seja por falta de vontade, o que é facto é que os aliados da China e da Rússia devem tirar as suas conclusões, e saber que não serão auxiliados em caso de necessidade.

O mesmo vale, é certo, para os aliados dos EUA, que também têm boas razões para não confiar no apoio norte- americano, pelo menos enquanto durar a administração Trump.

Com efeito, o que parece é que, mesmo num (não demonstrado, mas perfeitamente plausível) cenário em que EUA, Rússia e China tenham acordado não interferir reciprocamente em áreas de influência que mutuamente se reconheçam, os EUA têm as capacidades e a experiência para levar a cabo estas operações eficazmente, a Rússia tem mais olhos que barriga, e China, embora se esteja a preparar ainda não tentou, e por isso as suas reais capacidades são ainda uma incógnita – mas constituem uma ameaça à segurança global que deve ser levada muito a sério.

Neste cenário, a Europa está entregue a si mesma, como finalmente parece ter percebido, e terá que se adaptar à nova realidade. Mas muito mais do que uma crise, esta é uma oportunidade de firmar a sua independência militar face os EUA, quer a nível operacional quer a nível industrial, com o consequente e indispensável aumento da autonomia estratégica europeia.

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