Gronelândia. “Estas dinâmicas, ao longo da História, foram mais a regra do que a exceção”

Marta Roque

Teresa Nogueira Pinto com Doutoramento em Estudos sobre a globalização questionada pelo Estado com Arte Magazine sobre o interesse da Administração Trump na zona territorial da Gronelândia considera que está em causa a “enorme relevância, do ponto de vista geopolítico da Gronelândia”, incluindo em questões de segurança, o acesso ao ártico, acesso a recursos que “serão decisivos na competição económica, e a rotas comerciais”.

Desde Outubro de 2011 contribui regularmente para as plataforma de inteligência Geopolitical Information Service (GIS) e World Review, como analista de assuntos africanos. 

A seu ver “nao existe, uma soberania europeia e ainda bem”. Enquanto os países soberanos que integram a UE não tiverem esse debate com abertura e seriedade, a Europa, e cada um dos países que a compõem, continuará “a ser irrelevante” do ponto de vista geopolítico.

Donald Trump, conseguirá forçar a Gronelândia a mudar de soberania?

O conceito de soberania, no caso da Gronelândia, é difícil de definir. A soberania define-se por aquele que decide em última instância. Ora, no caso da Gronelândia, que é um território autónomo, mas ainda dependente da Dinamarca, não é claro onde essa soberania reside. Está estabelecido, no entanto, que o povo da Gronelândia, caso seja essa a sua vontade, tem direito à independência (colocando-se aqui a hipótese de um referendo).

Creio que o interesse de Trump é garantir que a Gronelândia se insere numa esfera de influência dos EUA, e tudo indica que utilizará todos os meios diplomáticos, incluindo formas de coerção económica, para garantir esse objetivo.

É viável? O que está em causa? Quais os verdadeiros interesses económicos de Trump?

Viável é certamente, a História mostra-nos que tudo é viável. Não sei quais os verdadeiros interesses económicos de Donald Trump. Parece-me que o que está em causa é a enorme relevância, do ponto de vista geopolítico, da Gronelândia, incluindo em questões de segurança, acesso ao ártico, acesso a recursos que serão decisivos na competição económica, e a rotas comerciais. Essa relevância deve ser lida no quadro de uma ordem internacional em mudança, marcada pela crise do multilateralismo, e pelo regresso de dinâmicas de competição, entre grandes potências, por áreas de influência. Será importante notar que estas dinâmicas, ao longo da História, foram mais a regra do que a exceção.

Mas é possível Trump estar a usar esta narrativa apenas para mostrar poder aos seus opositores Rússia e a China?

Não creio que se trate apenas de uma narrativa. Temos aqui, naturalmente, a forma disruptiva e diplomaticamente incorrecta, que é uma marca de Trump. Mas do ponto de vista da segurança e defesa dos Estados Unidos, e tendo em conta que a Rússia é uma das potências rivais dos Estados Unidos, a importância da Gronelândia é óbvia – é a via através da qual a Rússia poderia atingir o território americano.

Relativamente à China, esta Administração, que assenta a leitura e a estratégia internacional numa posição de realismo transacional, entende ser fundamental garantir o controlo sobre a rota comercial do Ártico. E, claro, se não forem os Estados Unidos a assegurar esse controle, será um dos seus rivais. Respondendo à pergunta, é uma questão de demonstração de força num quadro de competição entre grandes potências, mas que assenta numa leitura geopolítica e geoeconómica.

Como deve responder a UE a este ataque a um território da Nato?

A Europa deveria esforçar-se por compreender o mundo tal como ele é. Há um livro do Robert Kagan, de 2003, muito interessante e, num certo sentido, profético ( Do Paraíso e do Poder: A América e a Europa na Nova Ordem Mundial). A Europa, também pela sua fraqueza militar, vive na ilusão de um mundo Kantiano, regulado por normas e instituições. Mas o resto do mundo, incluindo a China, a Rússia, e os Estados Unidos, não vivem de acordo com essa ilusão.

De pouco servirão as indignações ou a invocação de uma ordem exausta (veja-se, por exemplo, a enorme crise de uma ONU afogada em contradições). Mas o problema é que a “Europa”, ao contrário da China ou dos Estados Unidos, é um conceito essencialmente contestável. Não existe, e ainda bem, no meu entender, uma soberania europeia. E enquanto os países soberanos que integram a UE não tiverem esse debate com abertura e seriedade, a Europa, e cada um dos países que a compõem, continuará a ser irrelevante do ponto de vista geopolítico. A UE, e os países que a integram (com sensibilidades e alianças muito distintas) será cada vez mais colocada com o dilema da escolha.

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