Uma verdadeira ruptura na narrativa secular

Susana Mexia, Professora de Filosofia

França, uma das filhas primogénitas da Igreja Católica e também o país mais secularizado da Europa, foi palco de um verdadeiro “tsunami” de cariz espiritual. Há noites assim…

Na Vigília Pascal de 4 de abril de 2026, 21.386 adultos e adolescentes receberam o Sacramento do Baptismo. Este número, divulgado em 25 de março pela Conferência Episcopal de França, é verdadeiramente surpreendente, constitui um recorde absoluto desde a Revolução Francesa. Há mais de dois séculos que em França não havia uma onda de conversões tão expressiva e muito menos numa única noite.

Não se trata de um erro de digitação nem de uma ilusão pascal. É a realidade concreta de uma Igreja que renasce com um vigor surpreendente.
O que torna este facto particularmente marcante é que ele ocorre no exacto momento em que o discurso dominante afirmava, com toda a certeza, que a secularização da sociedade francesa era um facto consumado, irreversível, quase “clinicamente comprovado”. Sociólogos contabilizavam o fechamento de igrejas, o esvaziamento de seminários e a queda vertiginosa da frequência aos cultos dominicais.

Há alguns anos, que os “profetas do fim da religião no Ocidente europeu já redigiam o obituário da fé em França, apresentando o país como o caso paradigmático de declínio inevitável. Mas a História, pela graça de Deus, é sempre imprevisível…

Todavia, nesta noite, à luz das velas da Páscoa, revelou-se uma França inesperada: jovem, diversa, lúcida, sedenta de transcendência e ávida da Verdade num mundo saturado de superficialidade, de banalidades e de violência.
Uma juventude e uma geração em busca da Rocha que é Cristo. Não foi uma decisão superficial e sem sentido, mas o reflexo de anos de preparação catequética, de estudo e de aprofundamento da Bíblia.
“Enquanto a nossa sociedade de consumo luta para satisfazer as aspirações mais profundas da humanidade, somos surpreendidos pela repentina e grandeza da sede de Deus.”» Estas palavras do Arcebispo de Lyon, Dom Olivier de Germay, merecem a nossa atenção, porque tocam no âmago do que significa “Ser Humano”.

Os valores da cultura ocidental alicerçados em séculos e séculos, foram fortemente contestados no século XIX, por pensadores ateus, como Marx, Nietzsche e Freud entre outros.
O século XX acalentou o sonho dum mundo sem Deus e sem valores que, como todos sabemos, deu origem ao maior inferno perpectuado na história da humanidade, guerras, extermínios, perseguições e totalitarismos.
Gerou-se um vazio axiológico, consequência de filosofias niilistas, no séc. XX e XXI com ausência de valores, talvez consequência também do enfraquecimento da capacidade crítica que facilmente conduz à manipulação dos indivíduos ou da indiferença e descomprometimento político-social face ao isolamento, ao egoísmo e à defesa dos próprios interesses.

Se os valores são a forma mais humana de se ser homem, a sua ausência conduz à degradação e, naturalmente, ao campo das maiores perversidades face à nossa natureza.
André Malraux, escritor e filósofo francês (1901 – 1976) disse: “Se não encontrar um valor supremo dentro de cinquenta anos, a nossa civilização que se acredita ser uma civilização da ciência, tornar-se-á uma das mais submissas aos instintos e aos sonhos elementares que o mundo já conheceu, por lhe faltar uma espécie de alimento espiritual que tenha domínio sobre o poder científico do homem moderno. Está claro, agora, que a ciência é incapaz de ordenar a vida. Uma vida é ordenada por valores”.

A experiência e a premência dos valores espirituais revelam neste movimento como todo um vazio interior só pode ser preenchido por Jesus Cristo Ressuscitado.
O Homem pela sua criação é um ser cunhado para ser chamado a algo mais, a transcender-se, a elevar-se, a ser dono do seu destino, a saber escolher, a atingir a plenitude do humano, a tocar o infinito, o divino, como prova da origem do seu pensamento, da pertinência do seu sentido de vida, da dignidade que lhe assiste na certeza da imortalidade da sua Alma.

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