Catarina Câmara é bailarina/performer, coreógrafa, ativista social e investigadora colaboradora do Instituto do Direito Penal e Ciências Criminais da Faculdade de Direito de Lisboa. É autora da obra apresentada na Feira do Livro, em junho de 2026, pela Fundação Calouste Gulbenkian ,“corpoemcadeia”, um projeto artístico e social que tem como missão dignificar e dar visibilidade a pessoas em situação de privação de liberdade, contribuindo para a humanização das prisões e para uma reflexão crítica sobre o sistema prisional e as estruturas de violência que o atravessam.
Catarina Câmara, com 44 anos, em 2019, na primeira vez que ficou frente a frente com os seus primeiros alunos reclusos, numa capela pequena, na prisão do Linhó, fez da sabedoria arte e do conhecimento empatia. Diz esta professora de dança contemporânea, agora, em 2026, com 51 anos, sem nunca sair do modo informal, mas em modo de capitão, apesar de ter “uma performance de proximidade muito íntima, existem fronteiras legais e éticas intransponíveis.”
Mulher e sozinha, rodeada de vinte machos-alfa, pensou: «Como quebrar o gelo? Como lidar com homens de “barba rija” que cumprem penas de cadeia superiores a cinco anos por crimes graves? A resposta foi imediata na sua cabeça: É aqui que começa a verdadeira essência da arte». «E depois, o que fazer? Fácil, dançar primeiro. Pensar depois. O importante serão as pequenas conquistas». Ao início não queriam mostrar a parte vulnerável, como dar a mão a outro homem… Sem alterar o tom, que se tem a adestrar ballet ou outras danças, fintando os olhos de homens grandes ameaçados pela emoção e vulnerabilidade que não querem mostrar, reagiu: «como é que é? Quem tiver medo de ficar sozinho comigo num sítio fechado por eu ser mulher, pode sair! Está tudo bem».
Foi o suficiente para um primeiro contacto de sucesso e ressaltou uma enorme gargalhada coletiva. Catarina trabalha sobre uma linguagem partilhada, não parte de um lugar desconhecido para eles, vai buscar as linguagens e as danças deles como base. Com horizontalidade e não formalismo. Tratar os reclusos por “tu” é o seu mote, mas para muitas pessoas de fora é complicado, explica esta professora. A vivência e a partilha são aqui evocadas como motor para a intimidade. Confessa que, estas pessoas são muito gratas e confiam no trabalho dos coreógrafos, formando assim relações através de histórias potentes. É inevitável, segundo a Catarina. «Não são superficiais e, como tudo na vida, ficam pessoas onde há mais alquimia».
O denominado conceito de campo, consiste em criar território e cultivar o grupo, que quase todos eram pessoas racializadas, maior parte nascida em Portugal e com nacionalidade portuguesa, jovens entre os 18 e os 35 anos, condenados, sobretudo, por crimes de furto, tráfico, sequestro, homicídio. As histórias que amiúde iam desvendando redundavam no mesmo argumento. Oriundos de bairros marginalizados, com carências económicas e sociais, níveis baixos de escolarização, falta de acesso à educação, habitação e cultura.
Muitos sofreram violência e abuso físico e psicológico e cresceram na rua, junto de pares a quem iam buscar referências de comportamento. De atitudes. De ação. A grande parte dos participantes são portugueses, alguns afrodescendentes. Desconfiam do “sistema”, reconhecem que “fizeram merda” e ao mesmo tempo sentem-se injustiçados e maltratados pela Instituição de estabelecimento prisional. «Onde os sonhos são rasos», falam daquele tempo, fora da clausura, da sensação de dinheiro fácil, de finalmente poderem comprar uns ténis de marca, da adrenalina de uma condução sem carta.

Referem que “aquilo” não ia durar para sempre, que um dia seriam apanhados, falam de arrependimentos, da sensação de revolta e das recaídas. «A generalização é perigosa, eu sinto que um recluso é uma pessoa em ruínas, despedaçado, a tentar reconstruir-se. Quando pensamos num ser humano que está fragmentado há espaço, quando há consciência pode ser reconstruído. Num lugar de queda num lugar de crise, vazio, choque pode potenciar a mudança», declara a Catarina.
Os guardas – que são os principais prisioneiros por estarem lá sempre -, são considerados por todos como “pessoas de betão”. São obrigados pelo sistema, às vezes pressionados por forças invisíveis. “Onde se constrói o poder e autoridade tem de se construir ou viver uma personagem de força. De castigo e obediência. É muito difícil desmontarem dali, mesmo que queiram pelos gestos e pelas palavras, são muito limitados na forma como eles se movem na sua própria coreografia de movimentos. Andam de um lado para o outro a abrir portas, a fechar portas, com atitude muito castigadora”. Para a professora, os guardas, se não aceitam a liberdade do outro é muito complicada a relação pessoal com o recluso. A maior parte dos guardas “não vê com bons olhos” estes projetos de arte, porque não se admite o contacto. E “acham inútil”. Têm de cumprir “um papel que a sociedade lhes impõe e é um papel muito pequenino. Fechados numa performance de força castigadora. Difícil para contatar com a alegria, com a leveza ou com o humor”.
Por isso, é muito importante trabalhar com os guardas, há um ou outro mais recetivo, mas não quer baixar a parte forte. Devido a pressões institucionais, sobretudo. A reinserção é importante para o Estado, mesmo sabendo de casos muito complexos de presos que voltarão ao crime. A saúde mental é um começo e há poucos profissionais nessa área. Por regra, é difícil deixarem fazer o trabalho deles em condições, porque existem poucos guardas e muitos presos. É uma agenda restrita. «Em vez de estarem fechados nas celas, a drogarem-se ou a fazerem mal uns aos outros, é bem mais preferível abrir caminho para o mundo das artes», como a Catarina diz e faz. «O código penal e de execução de penas são interessantes no sentido em que dizem que os fins da pena devem ser de reinserção, mas na prática isso não existe.», lamenta.
No Linhó, maior parte das pessoas são racializadas, muitos afrodescendentes e portugueses do bairro que falam com muita naturalidade frases como «uma vez na esquadra partiram-me os dedos e levei muita porrada», como afirma um recluso aluno. Nas diferentes camadas deste ecossistema prisional, existe um sistema de avaliação regular que permite perceber o impacto que este projeto tem na vida deles. A mãe de um recluso, confessou à Catarina, que o filho estava muito mais afável com ela através da experiência da dança. “Abre um caminho, num pensamento sobre justiça, para criar um campo de intervenção mais alargado que coloque todos a testar estas abordagens mais humanistas”. Com programas de mediação restaurativa.

Quando a Catarina começou o projeto em 2019, o primeiro pensamento foi positivo, de uma forma poética, num mundo ideal o que ela gostaria era que todos os projetos que lutam em contextos prisionais, como outros, como uma radio na prisão chamada “radio atividade”, por exemplo, que fossem implementados e enquadrados dentro dos programas da ressocialização social para poderem ir mais longe. «Claro que adoro quando apanho os machões tipo Hulk, que não conseguem dar a mão ou fazer movimentos suaves e, pouco a pouco, os gestos começam a ser cada vez mais naturais e superam as resistências. Parecem uns miúdos felizes. A expressão da emoção aumenta com cadência», enfatiza a professora.
A masculinidade vive na prisão, as relações masculinas assentes em relações de poder numa hierarquia entre homens. Onde procuram granjear o seu respeito é nos homens. “Validar o olhar noutro homem. Um homem pode expressar a sua sensibilidade, a sua força a sua fragilidade. Pode tocar noutro homem sem que afete a sua orientação sexual. Este sempre foi o busílis”, para ela. «O feminismo não é a mulher ser melhor do que o homem, ele aparece para dizer que temos todos que ter a mesmas oportunidades inclusive vocês homens são as primeiras vítimas do machismo», tenta incutir a sua opinião aos seus alunos reclusos. Pretende criar sempre um terreno que contenha segurança e ao mesmo tempo impulsione para o risco. Está sempre a gerir esta dualidade. Poder arriscar mais um bocadinho. Passou do palco para as catacumbas, de um lugar protegido tipo bolha, para um sítio com uma energia muito carregada.
Catarina Câmara é bailarina/performer, coreógrafa, ativista social e investigadora colaboradora do Instituto do Direito Penal e Ciências Criminais da Faculdade de Direito de Lisboa. Licenciou-se em Direito, em Dança e é Counselor em Psicoterapia Gestalt. É autora da obra apresentada na Feira do Livro, em junho de 2026, pela Fundação Calouste Gulbenkian ,“corpoemcadeia”.
“Corpo em Cadeia” é um projeto artístico e social que tem como missão dignificar e dar visibilidade a pessoas em situação de privação de liberdade, contribuindo para a humanização das prisões e para uma reflexão crítica sobre o sistema prisional e as estruturas de violência que o atravessam. O projecto artístico nasceu em 2019, no Estabelecimento Prisional do Linhó, no âmbito da iniciativa PARTIS – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, da Fundação Calouste Gulbenkian, promovido pela Companhia Olga Roriz.
“E se fosse (N)um outro lugar?” o espetáculo decorreu a 1 e 2 de julho de 2026, na Capela do Linhó. «Nasceu do colapso das certezas e do movimento interrompido. Uma reedição poética às encruzilhadas da criação e aos desvios que nos arrancam dos caminhos esperados. Dançamos para dissolver a distância entre este e aquele outro lugar. Entre aquilo que perseguimos e aquilo que persiste em nos encontrar». Para a Catarina, “tudo isto prova que somos todos muito mais parecidos do que imaginamos”. Perceber, integrar e aceitar.


