Rosália Amorim: “As mulheres têm sempre de fazer prova dupla”

Marta Roque

Rosália Amorim, a primeira mulher na direção do DN em 156 anos e a 1ª diretora de informação da TSF em 35 anos, diz que “talvez os empresários da comunicação social estejam desatentos ao mérito e às competências das mulheres.”

No debate da 2a conferência  do Ciclo “Mulheres e o 25 de Abril – 50 Anos de Democracia, 50 Anos de Igualdade?, ontem, na Assembleia da Republica. O colóquio apresenta mulheres pioneiras em várias áreas da sociedade portuguesa “para ajudar a quebrar estereótipos.”

Numa altura em que a comunicação social e os media estão a ser pressionados com tentativas de interferência das administrações, como é o caso da rádio TSF, e DN, alguns títulos do Global Media Group, “é aqui que as mulheres têm também de resistir.” Rosália Amorim é a primeira mulher a chegar à liderança do Diário de Notícias em 156 anos. Quando a convidaram “nem queria acreditar.”

“Como é que é possível em 156 anos não ter havido uma mulher líder, não terem acreditado numa mulher para estar à frente do jornal mais antigo deste país?” O jornal com “maior notoriedade, influência e poder a nível político e social”, diz Rosália Amorim em debate na conferência “Mulheres e o 25 de Abril – 50 anos de democracia. 50 anos de igualdade na Assembleia da República, ontem na AR.

Foi com “orgulho e grande peso nos ombros” que Rosália Amorim aceitou o cargo da direção do DN, “quis fazer melhor do que um homem, porque o escrutínio é muito grande”. As mulheres têm “sempre de fazer prova dupla de que são capazes, têm medo de ter coragem e ousadia”.

Na TSF é a primeira mulher na direção de informação em 35 anos, “talvez os empresários da comunicação social estejam desatentos ao mérito e às competências das mulheres”. Cita o secretário-geral da ONU, António Guterres, quando diz que “a mulher partiu com atraso para o mercado de trabalho, e ainda hoje em demasiados países continua a ser uma cidadã de segunda”. Mas isto não acontece só nos países sub-desenvolvidos, no continente europeu os homens ainda se questionam: “será que ainda posso confiar nas mulheres? Será que lhe posso entregar a Ordem dos advogados, ou um Museu, ou uma confederação, um sindicato ou uma rádio. Há sempre um duplo questionamento,” garante a dirigente da TSF.

Tomou sempre a dianteira, porque “é preciso resistir a essa tentativa de bullying, de assédio” no meio laboral.

Desde cedo lutou pela causa das mulheres, escreveu vários livros sobre o tema, mas o que teve mais sucesso  “O Homem Certo para Gerir Uma Empresa é Uma Mulher, Lições de 25 executivas que mandam nas grandes companhias em Portugal,” apresenta um título que serviu para chamar à atenção da questão da igualdade e desigualdade.

Considera que é muito mais desgastante para as mulheres, mas são mais respeitadas provando em dobro. “Sobretudo quando queremos ter uma família, e filhos”.

Nas redações “é muito normal” as mulheres serem sozinhas, ou divorciadas. “Casamentos longos com filhos é uma raridade nas redações, lembro-me de muito poucos além do meu”. O que explica a dedicação e a prova constante que as jornalistas têm de dar no mundo dos media.

Mas é preciso “resistir a essa tentativa de bullying, de assédio e mostrar de que matéria somos feitas. Somos feitas da mesma matéria que os homens, só usamos uma saia de vez em quando, o resto está lá”.  É com este espírito que recebe as estagiárias nas redações, incentiva para irem em reportagem e que vão para fora. A mais recente experiência na questão de igualdade no trabalho foi uma reportagem da guerra Israel-Hamas, na rádio TSF ficaram preocupados em enviar uma mulher. Disseram-lhe  que seria melhor enviar um homem, mas disse que não. “Pelo contrário vou mandar uma mulher. A Dora Pires, uma grande repórter, tem anos de experiência.”

A jornalista nasceu na revolução de abril e acredita que para muitos dos decisores é “uma miúda”, os homens é que  tomam sempre a dianteira. Muitas mulheres não se afirmam, mas Rosália Amorim quis sempre fazer-se “ouvir e não ser invisível.”

No mercado de trabalho nem todas as mulheres têm essa segurança, mas “é preciso a mulher querer”. Com o argumento da “família e dos filhos, vão para casa mais cedo e não querem ficar no trabalho até mais tarde, para fazerem o lado invisível de networking”, afirma a jornalista.

Para haver verdadeira liberdade não basta o direito de voto ou ir ao estrangeiro. Ainda falta cumprir abril, “que tenham oportunidade de chegar ao topo.”

Quotas nem que seja “temporariamente”

2.ª Conferência do Ciclo “Mulheres e o 25 de Abril – 50 Anos de Democracia, 50 Anos de Igualdade? Auditório António de Almeida Santos / Palácio de São Bento 09.01.2024

Rosália Amorim é contra as quotas por princípio, mas na prática o que se assiste é que sem cotas não existe ascensão das mulheres. “As quotas até fazem algum sentido na prática, nem que seja de forma temporária. Porque ao longo destes anos viu-se que se não forem aplicadas, nada muda.”

Alerta que em 2009 eram 5% das administradoras executivas do PSI20, em 2022 desceu para 4%, houve um retrocesso. As quotas são importantes “nem que seja temporariamente para se atingir o tal degrau, mas o mérito deve estar primeiro.”

Acredita que a mulher tem de “provar o dobro” para chegar a vice-presidente, “imagine-se para chegar a líder. A mulher só tem de chegar-se à frente e mostrar que com o seu mérito é merecedora da oportunidade.”

No debate sobre a liberdade das mulheres em democracia participaram Fernanda de Almeida Pinheiro, Bastonária da Ordem dos Advogados, Lucinda Dâmaso, Presidente da UGT, Nelma Fernandes, Presidente da Confederação Empresarial da CPLP, Rosalia Vargas, Presidente da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnologia – Ciência Viva e Augusto Santos Silva, Presidente da Assembleia da República.

O ciclo de conferências comemorativo da revolução de abril apresenta mulheres pioneiras em várias áreas da sociedade portuguesa “para ajudar a quebrar estereótipos”, segundo a deputada Lina Lopes, organizadora do ciclo de conferencias sobre as Mulheres e o 25 de abril.

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