Na conjuntura atual, o Irão continua a servir-se dos seus proxis na tentativa de alcançar esse desiderato e, simultaneamente, prejudicar os Estados Unidos, a potência liderante da Ordem Liberal, mas evitando o confronto direto. É à luz dessa ótica que deverão ser vistos os ataques dos Houthis à marinha mercante que circula no Mar Vermelho, o fornecimento de material bélico à Rússia, ao Hezbollah, ao Hamas e à Jihad Islâmica Palestiniana e a outros grupos que fazem da motivação religiosa a principal causa do terrorismo.
O bárbaro ataque terrorista levado a cabo pelo Hamas no dia 7 de outubro de 2023 e a consequente resposta retaliativa por parte de Israel, levaram a comunicação social a deslocar os holofotes da invasão russa da Ucrânia para a Faixa de Gaza. Uma mudança justificada pelo interesse público face ao surgimento de um novo foco de conflito que envolvia terroristas e reféns, muitos dos quais crianças e mulheres. Mais uma prova de que a atenção mediática aumenta quando está em jogo a vida de grupos sociais mais vulneráveis.
Porém, numa época em que a democracia representativa está a evolucionar para uma nova fase ou até para uma realidade nova, a democracia deliberativa, nem todas as vozes presentes no espaço mediático se aperceberam que, afinal, os dois conflitos estão umbilicalmente ligados, uma vez que decorrem da nova ordem Mundial, caraterizada por um Mundo de Múltiplas Ordens.
De facto, o ataque do Hamas não pode ser visto apenas como um novo desenvolvimento do conflito entre Israel e os palestinianos, pois os interesses vão muito além da pretensão palestiniana do cumprimento da resolução da Organização das Nações Unidas, ou seja, da aceitação por Israel de que na Palestina devem coexistir dois Estados. Uma solução que, aliás, também não colhe junto de uma parte considerável de grupos palestinianos, como o Hamas, a Fatah, o Hezbollah e a Jihad Islâmica Palestiniana, uma vez que não reconhecem o direito à existência de Israel.
Na verdade, talvez convenha atentar no facto de que o atentado terrorista de 7 de outubro, ainda que executado pelo braço aramado do Hamas, foi cuidadosamente preparado pela sua estrutura política, que não está sedeada em Gaza, e contou com o apoio do Irão, país que fornece parte do material bélico, sobretudo drones, que a Rússia está a usar na Ucrânia. Assim sendo, o conflito insere-se numa escala não apenas local ou regional, mas numa dimensão global.
Como é sabido, a declaração de formação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948, não respeitou o estipulado pela comunidade internacional horrorizada e traumatizada com o holocausto – a formação de dois Estados: um árabe e outro judeu – e, logo no dia seguinte, Israel viu-se atacado por cinco vizinhos. Um conflito cujo armistício só seria assinado em 1949, tendo a Faixa de Gaza sido ocupada pelo Egito e a Cisjordânia pela Jordânia, numa altura em que a demografia da Palestina apontava para um ritmo de crescimento mais rápido do número de judeus, que tinham passado de 24 000 para 630 000, entre 1880 e 1947, do que população árabe que, malgrado continuar a ser maioritária, apenas tinha crescido de 525 000 para 1 310 000 no mesmo período.
A História mostra que, desde a criação do Estado de Israel, a paz nunca existiu verdadeiramente na região. As fronteiras do novo Estado e a sua própria existência nunca colheram junto dos palestinianos que se consideravam os donos legítimos de toda a Palestina. Daí as intifadas contra Israel. Por isso as nakbas provocadas pelas respostas israelitas, os colonatos e a ocupação da Cisjordânia.
Na atualidade, malgrado a aproximação entre alguns países árabes e Israel, cuja existência passou a ser reconhecida por vários deles, a situação continua a ser pautada pelo conflito, sobretudo devido ao surgimento de grupos terroristas apoiados a partir do exterior e que usam a população como escudos humanos, e ao radicalismo de alguns partidos com representação no Knesset, o Parlamento de Israel, e dos colonos israelitas residentes na Cisjordânia, embora não convenha olvidar as rivalidades entre os grupos terroristas, que não decorre apenas da secular inimizade sunita-xiita, e a dificuldade sentida pelo braço político para controlar o ramo armado de muitos desses grupos.
A circunstância de o Irão xiita, a Arábia Sunita e a Turquia almejarem liderar a Ordem Islâmica no Mundo de Múltiplas Ordens em formação constitui um fator que está longe de despiciente no que concerne à dimensão regional e global do problema. Na conjuntura atual, o Irão continua a servir-se dos seus proxis na tentativa de alcançar esse desiderato e, simultaneamente, prejudicar os Estados Unidos, a potência liderante da Ordem Liberal, mas evitando o confronto direto. É à luz dessa ótica que deverão ser vistos os ataques dos Houthis à marinha mercante que circula no Mar Vermelho, o fornecimento de material bélico à Rússia, ao Hezbollah, ao Hamas e à Jihad Islâmica Palestiniana e a outros grupos que fazem da motivação religiosa a principal causa do terrorismo.
Face ao exposto, a situação do estabelecimento dos dois Estados na Palestina, por muitos reclamada, não se revela de fácil execução. Desde logo porque o Estado é classicamente caraterizado por três elementos – povo, território e aparelho de Poder – que estão longe de consensuais no caso palestiniano. Depois, porque a guerra, que esses grupos julgam travar por interesses próprios, não deixa de ser uma forma revisitada de guerra por procuração de interesses alheios.
O povo proverbia que os vizinhos acontecem, mas os amigos se escolhem. Neste caso, a comunidade internacional escolheu os vizinhos entre inimigos íntimos, ainda que por motivos ponderosos. As imagens que entram diariamente nas nossas casas, há mais de cem dias, mostram que uma ideia aparentemente boa nem sempre se traduz no resultado esperado.


