Esta semana trago um tema que me é particularmente caro, e na minha perspectiva, extremamente interessante e pouco divulgado. Falo daquilo a que é chamado de Trauma Geracional.
“Uma das maiores dificuldades sentida em Portugal é o estigma associado à busca de ajuda para questões de saúde mental, tornando as pessoas mais relutantes em falar sobre as suas experiências traumáticas ou em procurar tratamento”, quem o diz é a psicóloga Sophie Seromenho em entrevista ao Estado com Arte Magazine. Aos 29 anos, é membro efectivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses, tem um mestrado em psicologia cognitivo-comportamental e integrativa pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Detém uma especialização em terapias cognitivo-comportamentais de terceira geração e em Terapia da Compaixão, é formadora e autora do livro “Não é Loucura, é Ansiedade” lançado no ano passado e também co-autora de vários artigos científicos.
Actualmente dá consultas a adultos tendo como áreas de maior interesse, as perturbações de ansiedade, humor e personalidade, o trauma e o luto.
O que é o Trauma Geracional?
O trauma geracional refere-se à transmissão de traumas emocionais e psicológicos de uma geração para a seguinte. Isto ocorre quando as experiências traumáticas vivenciadas por uma geração, como guerras, abusos, ou eventos históricos significativos, afetam as gerações subsequentes através de padrões de comportamento, crenças e emoções transmitidas. Estes traumas podem ter um impacto duradouro nas famílias e nas comunidades, influenciando a saúde mental e o bem-estar das gerações futuras.
Alguns exemplos de trauma geracional podem ser Holocausto: muitas famílias judias que sobreviveram ao Holocausto sentiram traumas profundos. Esses traumas podem ser transmitidos para as gerações seguintes, resultando em ansiedade, depressão e dificuldades de relacionamento.
A Escravidão: Nos Estados Unidos, as famílias afro-americanas carregam o peso do trauma da escravidão e da segregação racial. Isso pode se manifestar em questões de identidade, injustiça racial e desigualdade económica. Guerra: gerações que viveram em regiões afetadas por conflitos prolongados, como guerras civis, podem transmitir traumas relacionados à violência, perda de entes queridos e deslocamento.
Abuso familiar: quando uma geração sofre abuso físico, emocional ou sexual, é possível que esses padrões de abuso se perpetuem nas gerações seguintes, criando ciclos de trauma. Este é o mais encontrado na minha prática clínica. Migração forçada: Populações que foram deslocadas devido a eventos históricos, como migrações forçadas, podem transmitir o trauma da perda de lar, identidade cultural e estabilidade.
Estes são apenas alguns exemplos, mas o trauma geracional pode ocorrer em qualquer contexto em que traumas significativos afetem uma geração e sejam transmitidos para as seguintes, influenciando seu bem-estar emocional e mental. É importante reconhecer e abordar esses traumas para promover a cura e o entendimento intergeracional.
Como se faz o diagnóstico no contexto terapêutico?
O diagnóstico de trauma geracional no contexto terapêutico pode ser um processo complexo e requer uma abordagem sensível. Aqui estão algumas etapas e considerações-chave:
O terapeuta pode começar por explorar a história familiar do cliente para identificar eventos traumáticos que podem ter afetado gerações anteriores. Isso pode incluir perguntas sobre a experiência de vida dos seus pais e avós. Isto é geralmente recolhido durante a anamnese.
Pode observar padrões de comportamento e pensamento que parecem ser repetitivos ou enraizados em experiências passadas. Isso pode incluir padrões de evitamento, hipervigilância, problemas de confiança ou dificuldades de relacionamento. Isto acontece muito em adultos que em criança foram vítimas secundárias de violência doméstica.
Os sintomas comuns de trauma geracional podem incluir ansiedade, depressão, raiva não resolvida, flashbacks (quando há exposição direta ao trauma) e dificuldades de regulação emocional.
O terapeuta pode ajudar o cliente a explorar os traumas conhecidos em gerações anteriores e como esses eventos podem estar a impactar a sua vida atual.
O uso de um genograma familiar (uma representação gráfica da árvore genealógica que inclui informações sobre eventos traumáticos e relacionamentos) pode ser útil para visualizar padrões ao longo das gerações.
Em muitos casos, pode ser benéfico trabalhar em colaboração com outros profissionais de saúde mental, como psiquiatras, para abordar questões específicas, como perturbações de ansiedade ou depressão.
É importante lembrar que o diagnóstico de trauma geracional muitas vezes é subclínico, o que significa que os sintomas podem não atender aos critérios de uma perturbação mental específica.
No entanto, o reconhecimento e a compreensão desses traumas são fundamentais para o processo terapêutico, pois podem lançar luz sobre questões emocionais e comportamentais do cliente e ajudar na busca de estratégias de coping e resiliência.
Como se trata?
O tratamento do trauma geracional é um processo complexo que geralmente envolve abordagens terapêuticas especializadas. Algumas estratégias e abordagens comuns são a Terapia Individual a Terapia com um psicólogo especializado em trauma é frequentemente a primeira linha de tratamento. Terapeutas podem utilizar abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a Terapia de Exposição, a Terapia de Processamento de Memória e Movimento dos Olhos (EMDR) ou terapia narrativa para ajudar o cliente a processar e entender o trauma. Terapia Familiar: como o trauma geracional muitas vezes afeta toda a família, a terapia familiar pode ser benéfica para melhorar a comunicação, compreensão e apoio mútuo. Isso pode ajudar a quebrar padrões disfuncionais.
Grupos de Apoio: participar de grupos de apoio específicos para trauma geracional pode fornecer uma sensação de pertença e compreensão compartilhada. Esses grupos permitem que as pessoas compartilhem experiências e estratégias de coping. Mindfulness e Relaxamento: técnicas de relaxamento e mindfulness podem ajudar as pessoas a lidar com a ansiedade e o stress associados ao trauma. Isso inclui meditação, yoga e técnicas de respiração. Psicoeducação: educar as pessoas sobre os efeitos do trauma geracional, como a transmissão de padrões de comportamento e crenças, pode ser uma parte importante do tratamento.
Compreender como o trauma afeta a mente e o corpo ajuda no processo de cura. Abordagem Culturalmente Sensível: terapeutas devem estar cientes das influências culturais e históricas específicas do cliente, uma vez que o trauma geracional pode ser moldado por esses fatores. A terapia deve ser adaptada para levar em consideração a identidade cultural. Em alguns casos, medicamentos podem ser prescritos para ajudar a gerir sintomas de ansiedade, depressão ou outras perturbações de saúde mental que possam surgir como resultado do trauma.
É importante lembrar que o tratamento do trauma geracional pode ser um processo longo e desafiador, e o progresso pode variar de pessoa para pessoa. A chave é encontrar um terapeuta ou equipa de profissionais de saúde mental qualificados e experientes que possam adaptar o tratamento às necessidades individuais do cliente.
Existe algum factor decisivo e padrão que causa este tipo de trauma?
Não existe um único fator decisivo ou padrão que cause o trauma geracional, pois ele pode originar-se de uma variedade de eventos e circunstâncias. No entanto, alguns fatores comuns que contribuem para o trauma geracional incluem eventos traumáticos, como guerras, genocídios, desastres naturais, migração forçada, abuso familiar ou eventos históricos que afetam uma comunidade, podem ser um gatilho para o trauma geracional.
A transmissão de crenças e comportamentos, por exemplo, se um pai que passou por abuso físico tende a repetir esse padrão com os seus filhos, o trauma pode ser perpetuado. O silêncio e negligência. Às vezes, o trauma geracional é o resultado do silêncio e da negação de experiências traumáticas. Quando as gerações anteriores não falam sobre seus traumas ou não recebem apoio emocional, isso pode afetar as gerações subsequentes.
O impacto cultural e social por exemplo, as comunidades que sentiram discriminação racial ou opressão sistemática podem enfrentar traumas que são transmitidos através de gerações e fatores individuais como a resiliência de cada pessoa.
Como se impede de passar o trauma para os filhos?
Terapia individual por parte dos pais, de casal ou familiar. Comunicação assertiva, autocuidado.
O contexto cultural português torna este tema mais difícil de falar/tratar?
O tratamento e a discussão do trauma geracional podem ser influenciados pelo contexto cultural em Portugal, assim como em qualquer outro lugar do mundo. Uma das maiores dificuldades sentida em Portugal é o estigma associado à busca de ajuda para questões de saúde mental, tornando as pessoas mais relutantes em falar sobre as suas experiências traumáticas ou em procurar tratamento. Outra coisa que pode dificultar é que a cultura portuguesa frequentemente valoriza a família e a hierarquia familiar, podendo criar um desafio extra quando se quer falar abertamente com a própria família sobre os problemas familiares que estão a ser vividos, incluindo traumas, por medo de desrespeitar essa hierarquia.
Particularmente para homens?
A abordagem do trauma geracional pode ter considerações específicas quando se trata de homens, uma vez que as expectativas sociais em relação aos homens e à masculinidade podem influenciar a forma como eles lidam com o trauma e procuram por tratamento. A masculinidade tóxica, o machismo e o estigma que ainda se vive em Portugal dificulta muito o tratamento, sendo que os homens são uma população de risco ao suicídio e depressão.
Para abordar o trauma geracional em homens, é importante promover a consciencialização sobre a saúde mental e desafiar as normas de masculinidade tóxicas que desencorajam a expressão de emoções; criar um ambiente seguro e de apoio no qual os homens possam compartilhar suas experiências e sentimentos relacionados ao trauma; oferecer opções de tratamento culturalmente sensíveis que atendam às necessidades específicas dos homens, incluindo terapeutas que compreendam as pressões e expectativas associadas à masculinidade e reconhecer que a recuperação do trauma pode ser um processo individualizado e que os homens podem ter diferentes maneiras de abordar e se recuperar do trauma.
Como parte do processo, deve-se criar limites entre familiares?
Claro! Definir limites saudáveis entre familiares pode ser uma parte importante do processo de lidar com o trauma geracional e promover o bem-estar emocional, uma vez que os limites definem as fronteiras emocionais e físicas entre os membros da família e estabelecê-los pode ajudar a criar um ambiente mais seguro e equilibrado.
Cada membro da família tem necessidades individuais de espaço pessoal, privacidade e autonomia e, por isso, estabelecer limites bem definidos podem ajudar a evitar a violação do espaço pessoal e da autonomia, a re-traumatização e que eventos ou interações dolorosas do passado se repitam.
Encontrar um equilíbrio entre o cuidado e a autonomia é essencial. Os limites não significam necessariamente se afastar completamente da família, mas sim estabelecer fronteiras que permitam o autocuidado e a independência.


