No Meio Está a Virtude

Nuno Lumbrales, Advogado

Costumava-se dizer “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. É esta a grande questão com que o PS se debate na escolha do seu novo líder: sairá vencedor o candidato que prefere entendimentos ao centro com o partido ideologicamente mais próximo do PS, evitando extremismos sejam eles de esquerda ou de direita?​

Costuma-se dizer que no meio está a virtude. A moderação pode não ser o melhor instrumento para galvanizar as hostes e alardear soundbites, mas só ela permite uma governação sábia e equilibrada.
​No passado, a principal fratura ideológica entre as forças políticas com representação parlamentar não era entre direita e esquerda, mas sim entre forças moderadas e forças radicais, (um eufemismo para extremistas). Em suma, entre partidos de formação e tradição democrática e parlamentar, e partidos tributários de ideologias revolucionárias.

​Assim, embora houvesse uma alternância e concorrência democrática entre esquerda e direita, o país estava sempre confiadamente apontado ao centro e à democracia. Seguindo «pelo meio da estrada»., na memorável expressão do Senhor Coronel Viana de Lemos no seu livro Duas Crises, (Edições Cosmos, 2ª Edição, junho de 2009, pág. 128).

​A geringonça pode, porém, ter alterado este natural e desejável estado das coisas. Tendo sido originada por uma maioria “do contra”, que teria sobretudo em comum querer expressar com o seu voto estar contra a continuação das medidas da Troika, que acabou por dar origem a duas legislaturas com um suporte parlamentar desavisado, formando um bloco composto por um dos partidos fundamentais da democracia portuguesa, e duas forças políticas provenientes da esquerda revolucionária que professam uma ideologia essencialmente antiocidental.

A isto acresce o aparecimento do Chega, que é, no essencial, uma reação (ou uma antítese, na terminologia dialética) à geringonça, e assim, de certa forma, um fruto da mesma árvore.
​Desde a geringonça que a principal fratura ideológica no nosso Parlamento deixou de ser entre moderados (centro direita/centro-esquerda) e radicais/revolucionários, para passar a ser entre esquerda e direita. Parece que, ao longo do caminho, nos estamos a esquecer que existe maior proximidade ideológica entre centro-direita e centro-esquerda do que entre cada um destes campos e o respetivo extremo.

E essa consciência é essencial ao bom funcionamento, e a médio prazo à própria subsistência, de uma Democracia.
​Se as coisas assim continuarem, arriscamo-nos a passar a ter um país política e socialmente tão polarizado como os EUA ou a França, por exemplo, e com os níveis de conflitualidade e agressividade correspondentes, tão contrários à natureza do povo português. Passaremos, por outras palavras, a seguir pelas bermas da estrada. E um país que segue nas bermas, as mais das vezes acaba por acordar tarde demais, já caído nas valetas.

​Portugal sabe o que é levantar-se depois de uma queda. Fê-lo inúmeras vezes ao longo da sua já longa História, e várias vezes só nas últimas duas ou três gerações. Já devíamos ter aprendido o quanto isso custa, e por isso o quão importante é estar alerta para não chegar a cair.

​Costumava-se dizer “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. É esta a grande questão com que o PS se debate na escolha do seu novo líder: sairá vencedor o candidato que prefere entendimentos ao centro com o partido ideologicamente mais próximo do PS, evitando extremismos sejam eles de esquerda ou de direita? Ou será escolhido o candidato que considera extremistas todos os partidos à direita do PS (PSD incluído), e moderados os partidos à sua esquerda? Com quem andará, e consequentemente quem será, o PS de hoje?

​Em tempos de turbulência geopolítica e militar, como são os de hoje, são necessários governos feitos com pessoas competentes, honestas, experientes e equilibradas. Capazes de discernir o interesse nacional e tomar as medidas necessárias com objetividade e prontidão, mas sem enviesamentos ideológicos. Estes não são tempos para brincadeiras, experiências ou aventureiros, são tempos para estadistas.

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