A exposição O Tesouro dos Reis mostra o extraordinário e pouco conhecido tesouro artístico do “Terra Sancta Museum”, em exibição na Galeria Principal, da Fundação Calouste Gulbenkian. Conta a história de viagens de famílias reais europeias aos lugares santos do cristianismo no Médio Oriente. É composta de doações realizadas por monarcas católicos europeus a várias igrejas daquele território ao longo de 500 anos. Vai estar patente ao público até 26 fevereiro de 2024.
No tempo conturbado em que nos é dado viver pelo conflito entre Israel e a Palestina, torna-se óbvio que nenhum cristão pode deslocar-se neste Natal a Belém, de Judá. Neste cenário de guerra, destruição humana e material tornou-se imperioso a preservação do património, pelo que o Museu Calouste Gulbenkian nos presenteou com a exposição ‘O Tesouro dos Reis – “obras-primas da Terra Sancta Museum”, recordando como Jerusalém, é o centro nevrálgico do encontro do homem com Deus e um património sagrado, desde o século IV até aos nossos dias.
Esta exposição mostra o extraordinário e pouco conhecido tesouro artístico do “Terra Sancta Museum”, composto de doações realizadas por monarcas católicos europeus a várias igrejas daquele território ao longo de 500 anos.
As peças em exposição, para além do seu carácter religioso e estético, têm um forte significado histórico e político pois, durante séculos, a Terra Santa funcionou como um teatro da diplomacia internacional, onde as grandes potências rivalizavam entre si, oferecendo obras artísticas de ourivesaria, têxteis e mobiliário com o objetivo de serem utilizados no culto e na ornamentação da Basílica do Santo Sepulcro e de outras igrejas da Palestina.
De entre estes templos, a Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, assume o maior protagonismo. Na tradição cristã, este é o local da morte, sepultamento e ressurreição de Jesus de Nazaré. Considerando esta centralidade espiritual, o envio de ofertas para este e outros templos da Palestina representava, para estes príncipes, uma importante projecção da sua devoção e do seu poder.
Vários soberanos europeus, como Filipe II de Espanha, Luís XIV de França, João V de Portugal, Carlos VII de Nápoles ou Maria Teresa de Áustria, enviaram recursos materiais e financeiros destinados ao sustento das igrejas e comunidades locais, tais como moedas de ouro, cera e, também no caso português, bálsamos, perfumes, especiarias e chá.
Para além destes recursos de carácter efémero, foram igualmente alvo da generosidade destes monarcas obras artísticas de ourivesaria, têxteis e mobiliário, com o objetivo de serem utilizados no culto e na ornamentação dos espaços religiosos.
A exposição tem, como tema central estas doações, que incluem magnificas produções da arte europeia. A lâmpada de igreja remetida para Jerusalém pelo rei de Portugal, D. João V, e o baldaquino que acolhia uma custódia ou um crucifixo, doado por Carlos VII, rei de Nápoles, são exemplos destas ofertas.
Propõe ainda um percurso pela história milenar e pelo simbolismo espiritual da Basílica do Santo Sepulcro, bem como pelo papel desempenhado pela Custódia da Terra Santa – a instituição católica franciscana responsável por zelar pelos lugares cristãos na recepção, utilização e preservação destes objetos de culto católico.
A ligação da família Calouste Gulbenkian aos lugares santos a Jerusalém
A ligação de Calouste Gulbenkian à Terra Santa é também evocada na exposição, que revela o vínculo de longa data da sua família a este lugar e dá a conhecer um manuscrito iluminado arménio do século XV oferecido pelo colecionador ao Patriarcado Arménio de Jerusalém. Apresentado aqui pela primeira vez, este manuscrito foi doado na década de 1940, quando Gulbenkian já residia em Portugal.
Calouste Sarkis Gulbenkian, (Üsküdar 23 de Março de 1869 -Lisboa, 20 de Julho de 1955), nasceu no seio de uma família abastada de comerciantes arménios, em Istambul. O seu pai importava petróleo da Rússia. Estudou em Marselha e em Londres, no King’s College, onde obteve o diploma de engenharia do petróleo (1887).
Em 1892, casou em Londres com Nevarte Essayan. Tal como ele, era natural de Cesareia e descendente de família arménia nobre e abastada. Do casamento nasceram dois filhos: Nubar Sarkis (1896-1972) e Rita Sirvarte (1900-1977).
O filho de Rita Sirvarte, Mikhael Essayan (1927-2012), foi Presidente honorário da Fundação e seu filho, Martin Sarkis Essayan, bisneto de Calouste Gulbenkian – é actualmente administrador da Fundação, responsável pelas atividades na Grã-Bretanha e na República da Irlanda, e também pelo Serviço das Comunidades arménias.
Gulbenkian fez uma viagem à Transcaucásia em 1891, visitando os campos petrolíferos de Baku. Aos 22 anos de idade, publicou o livro La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron – Souvernirs de Voyage, do qual alguns capítulos foram publicados numa revista que chegou às mãos do ministro das Minas do governo otomano. Gulbenkian foi por este encarregado de elaborar um relatório sobre os campos de petróleo do Império Otomano, em especial na Mesopotâmia.
Negociador hábil e esclarecido, excelente perito financeiro, Gulbenkian negociou contratos de exploração petrolífera com os grandes financistas internacionais e as autoridades otomanas, fomentando a exploração racional e organizada desta fonte de energia emergente. A indústria internacional dos petróleos começava a tomar forma no fim do século XIX. Organizou o grupo Royal Dutch, serviu de ligação entre as indústrias americanas e russas e deu o primeiro impulso à indústria na região do Golfo Pérsico.
Durante a Primeira Guerra Mundial sugeriu em França a criação de um gabinete para controlo do petróleo, o Comité Général du Pétrole, chefiado por Henri Bérenger. Ao serviço deste comité, obteve êxito para um seu plano: pelo Tratado de San Remo (1920), a França ganhou à Grã-Bretanha o direito a administrar os interesses do Deutsche Bank na companhia de petróleo turca (os ingleses faziam-no desde 1915).
Em 1928, desempenhou papel fulcral nas negociações multipartidas entre grandes empresas internacionais para a divisão da então Turkish Petroleum Co., Ltd. (hoje a Iraq Petroleum Co., Ltd.) entre a Anglo-Persian Oil Co. (hoje a BP), a Royal Dutch Shell Group, a Companhia Francesa de Petróleos e a Near East Development Corp. (metade da Standard Oil e metade da Socony Mobil Oil). A cada uma coube 23,75% do capital e, a Calouste Gulbenkian, 5%. Este facto originou que Gulbenkian ficasse conhecido na indústria do petróleo como “o Senhor Cinco por Cento“.
Foi um excelente homem de negócios, colecionador de arte e filantropo de origem arménia, nascido no Império Otomano. Com uma vasta cultura oriental e ocidental, Gulbenkian foi, acima de tudo, um “arquiteto de empreendimentos”, com visão e sentido de equilíbrio dos interesses em jogo na primeira metade do século XX. Graças à sua persistência, capacidade negocial e flexibilidade, desempenhou um papel fundamental como mediador nas negociações internacionais para a exploração das reservas de petróleo no território que é hoje o Iraque.
Calouste Gulbenkian foi um amante de arte e homem de raro e sensível gosto, além de reunir uma extraordinária coleção de arte, principalmente europeia e asiática, de mais de seis milhares de peças. Além da pintura, reuniu um importante espólio de escultura do Antigo Egito, cerâmicas orientais, manuscritos, encadernações e livros antigos, artigos de vidro da Síria, mobiliário francês, tapeçarias, têxteis, peças de joalharia de René Lalique, moedas gregas, medalhas italianas do Renascimento, etc.
Na arte europeia, reuniu obras que vão desde os mestres primitivos à pintura impressionista. Uma parte dessa coleção esteve exposta por empréstimo, entre 1930 e 1950, na National Gallery (Londres) em Londres, e na Galeria Nacional de Arte em Washington, D.C. Figuram na colecção obras de Carpaccio, Rubens, VanDyck, Rembrandt, Gainsborough, Romney, Lawrence, Fragonard, Corot, Renoir, Boucher, Manet, Degas, Monet e muitos outros.
Tendo adquirido nacionalidade britânica em 1902, em Abril de 1942, entrou em Portugal pela primeira vez, convidado pelo embaixador de Portugal em França. Inicialmente, Lisboa seria apenas uma escala numa viagem a Nova Iorque, mas o empresário adoeceu e acabou por ficar mais tempo do que planeara, agradado com a paz que em Portugal se vivia durante o conflito que devastava o resto da Europa. Sentindo-se bem acolhido, estabeleceu residência permanente em Lisboa, no Hotel Aviz, onde acabou por se instalar definitivamente até à sua morte, em 1955. A 28 de fevereiro de 1950 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.
No seu testamento, datado de 18 de junho de 1953, criou a fundação com o seu nome que ficou herdeira do remanescente da sua fortuna, e que tem fins artísticos, caritativos, científicos e educativos, elegendo Portugal para a sua fixação – agradecendo, postumamente, o acolhimento que teve num momento crítico da história da Europa e sabendo o respeito que em Portugal haveria pelo escrupuloso cumprimento da sua vontade.
Tal como soube reunir uma enorme fortuna ao longo da vida, Gulbenkian soube distribuí-la em testamento com generosidade. Na caridade, deixou verbas para especial proteção das comunidades arménias, que à altura não tinham asseguradas as necessidades básicas pelas organizações internacionais. Foi benfeitor do Patriarcado Arménio de Jerusalém. Como era devoto da Igreja Arménia, fez construir em Londres a Igreja de São Sarkis, dedicado à memória dos seus pais e onde se encontram as suas cinzas.
Foi desejo de Gulbenkian que a colecção reunida ao longo da vida ficasse exposta num único local. Assim é que está em Lisboa, desde Junho de 1960. Em 1969 foi inaugurado o edifício-sede da Fundação Calouste Gulbenkian (que acolhe os serviços centrais da Fundação, dois auditórios, salas de conferências e 2 espaços expositivos) e o Museu, onde se encontra esta coleção permanente.
Em 1983 foi inaugurado o Centro de Arte Moderna, no mesmo parque junto à Praça de Espanha onde se localizam todos esses edifícios.


