Duas gémeas brasileiras, por artes e ofícios oriundos dos deuses, conseguiram obter a nacionalidade portuguesa em apenas duas semanas, sem mais. E logo nessa expedita, eficiente e capacitada administração pública portuguesa, como todos nós, portugueses, tão bem a conhecemos. Maravilha. Dizem uns responsáveis lá dos serviços, com a maior cara de pau, que “foi dentro do que é normal”, nada de especial. Cunhas? Quem é que falou em cunhas? Nada de cunhas, essa agora, somos à prova de cunhas. Primeiro cambalacho.
Depois, essas gémeas conseguiram essa enorme proeza de obter uma consulta e já nem interessa de que especialidade, em tempo absolutamente recorde, num hospital português, não é em nenhum país nórdico, é aqui mesmo em Portugal, onde o pobre cidadão comum, verdadeiramente português e não desses inventados pelos socialistas, desesperam anos perdidos para as conseguir. As gémeas, feitas “portuguesas” à pressão, chegaram a Portugal num dia e foram recebidas com passadeira vermelha no dia seguinte. E os responsáveis, tal como os outros, também dizem que “foi tudo normal”, sem cunhas, claro, até porque temos o tal governo socialista que odeia cunhas e “nem passaram à frente de ninguém”, isso é que nem pensar. Foram as energias dos deuses, vindas dos céus, outra vez a funcionar, que também marcam consultas. Segundo cambalacho.
Depois, num serviço de saúde onde não há dinheiro para “mandar cantar um cego”, passe a expressão, onde os meios de diagnóstico e as receitas são controlados à lupa e contados ao cêntimo, as gémeas brasileiras, ups… “portuguesas” à pressão, aliás, assim num ápice, conseguiram um tratamento que custa qualquer coisa como a módica quantia de 4 milhões de euros, isso mesmo, 4.000.000,00 €, registem bem portugueses, aqui não se brinca em serviço. E não comece a pensar, “ah… e tal isto deve ter sido alguma cunha”, não foi, temos um governo socialista, onde cunhas não entram, “foi tudo dentro da normalidade”, dizem também estes outros responsáveis, claro que sim, digo eu. Terceiro cambalacho.
Entretanto, sacados os 4 milhões, as brasileiras regressaram ao Brasil, servidas e contentes.
Deixemo-nos de charadas e vamos dar nomes aos “bois”.
Os pais das gémeas, lá no Brasil, são íntimos do filho do Presidente da República de Portugal e da respetiva esposa. O filho mandou o recado ao pai, que por sua vez enviou o recado para a Casa Civil da presidência e o chefe da Casa Civil e uma assessora, depois é que lá trataram do assunto. Mas ele, o Presidente, claro que não teve nada a ver com isso, não viu, nem ouviu, nem desconfiou de nada e ao ser questionado pela comunicação social, sobre o assunto, antes não se lembrava da coisa, para mais tarde, perante as evidências, reconhecer que afinal tinha recebido o recado do filho, mas… com aquele ar de quem tem alguma coisa que não bate ali bem, disse o óbvio, que não tinha feito nada a não ser o mesmo que faz com todos os pedidos de outros cidadãos, nada de tratamento especial ao filho.
Ora aqui está um caso exemplar de honestidade presidencial. Como se fosse natural e normal o Toino da Miquelina e o Chico das Alforrecas, dirigirem-se ao Presidente da República a meter cunhas. Nem os dotes de oratória, antigamente bastante ginasticados, lhe deixaram margem para disfarçar o indisfarçável, é que o comprometimento era evidente e que estava metido no assunto dos pés à cabeça, também ninguém ficou com dúvidas.
Depois, vêm aquelas notícias dos contactos diretos e reuniões, assumidas, vá lá vá lá, do filho do presidente com gente lá da secretaria de estado da saúde e às tantas, com o próprio ministro, com o secretário de estado, que aliás já repetiu que também tratou tudo como com qualquer outro cidadão, é que ele também costuma ter dias para receber e reunir com a Maria Lavadeira e a Bela Adormecida, que lá vão amiúde cravar favores, só que ele não os faz e mais uma vez o povo, esse otário de serviço permanente, pode estar descansado, porque a ética e o ódio à cunha prevaleceram mais uma vez e a consulta marcada em velocidade relâmpago, não foi feita por ninguém, pelo menos do planeta terra. Apareceu no sistema informático, mas pela tal mão divina vinda dos céus.
Mas lá dentro do hospital, dizem os médicos, que aquilo foi cunha do Presidente, ora agora, esta afronta.
Portanto, temos aqui aquilo a que se chama um enorme cambalacho, que envolve o Presidente, os serviços da presidência, o governo, os serviços de saúde e sejamos claros, estão todos metidos no mesmo pântano do favorecimento de duas estrangeiras, em prejuízo do erário público, que é como quem diz, do povo português, que pagou o que não devia, naquilo a que se chama um crime de lesa-pátria, cometido por gente sem valores, sem princípios, sem dignidade e sem escrúpulos.
Perante tamanhas evidências e a negação dessas evidências, impunha-se recorrer a todos os meios possíveis para esclarecer o envolvimento dos diversos intervenientes e mais uma vez, como quem não deve não teme e como o Chega não deve nem teme, propôs a audição parlamentar dos pais das gémeas brasileiras, do filho do Presidente, do secretário de estado da saúde e da ministra da saúde à altura dos factos e o PS, como deve e teme e a vergonha é coisa que não lhes assiste, aproveitando a dita maioria que tem no parlamento, chumbou a proposta, que até teve a aprovação dos outros partidos. Não só safou os seus, como ajudou o presidente a safar-se dos óbvios salpicos colaterais, que lhe viriam parar ao colo na sequência da audição do filho. Presidente e Primeiro Ministro, sempre lado a lado em conluio.
E estas coisas não se tratam com um processo a exigir o regresso do valor do tratamento indevido, porquê? É que no tribunal, todos tinham que explicar tudo, sem o chapéu de chuva do PS.
Sim, estamos em Portugal, sim temos um governo socialista e isso justifica, mas o pântano não pode continuar a aprofundar-se, porque eles perderam a vergonha e também a dignidade.
Registe, tome nota e a 10 de Março, veja o que anda a fazer da sua vida.

