O que é uma mulher? Não uma invenção, certamente

Ricardo Formigo, Professor de Português no Colégio Planalto

Se a mulher na poesia não passa de uma invenção, por que razão há de ser uma realidade em todos os outros âmbitos da vida? Portanto, o sujeito poético e a mulher camoniana não passam de construções sociais que, tal como o professor Frederico Lourenço concluiu na sua apresentação antes de um extasiado aplauso da audiência, não é por ser “um amor inventado que é menos verdadeiro do que um real”.

O single da banda “Quatro e Meia”, com o título “Na Escola”, lançado em março de 2023, leva-nos a refletir sobre o que se aprende na escola e, entre as várias aprendizagens de várias matérias de várias disciplinas, nem um apontamento há sobre como pensa uma mulher. De facto o pensamento de uma mulher pode ser um mistério para o homem.

No entanto, parece-me que ênfase da letra não está nas névoas da mente feminina, mas no facto de a escola não nos preparar para lidar com alguns aspetos básicos da realidade, entre os quais está a evidência de que um homem e uma mulher são diferentes por natureza.

O documentário de Matt Walsh, lançado nos Estados Unidos em junho de 2022 e banido das redes pouco tempo depois, leva-nos a refletir sobre a pergunta “O que é uma mulher?” (tradução à letra do título do documentário em português). Nele, o comediante americano dá uma volta ao mundo, indo até aos recantos mais inóspitos do planeta Terra para saber o que as pessoas pensam e aprendem (na escola e não só) sobre o que é uma mulher.

No fim de semana de 4 e 5 de maio, no Centro Cultural de Belém, houve a primeira edição do FeLiCidade, o Festival da Língua e da Liberdade na Cidade, que tem como objetivo celebrar o dia Mundial da Língua Portuguesa, associado à celebração dos 500 anos do nascimento de Camões e dos 50 anos da revolução do 25 de abril.

Este festival promove a celebração da língua como uma casa, criar uma festa onde as várias diferenças são bem-vindas, no paradigma de uma “cidade sem muros e sem ameias”. No entanto, a organização do festival deve explicar-nos como é que uma casa sem muros e sem ameias se aguenta de pé…Nesta celebração das diferenças, sobretudo das diferenças entre os vários povos e tradições que formam as comunidades de língua portuguesa – que o festival põe a tema no exterior do CCB num arejado e delicioso arraial gastronómico internacional – parece-me que uma diferença fundamental entre os falantes da língua portuguesa foi esquecida: a diferença natural entre um homem e uma mulher.

O professor Frederico Lourenço, ilustre escritor, tradutor e professor universitário, que conhece a língua portuguesa como ninguém, deu uma aula magistral numa sala cheia – onde até cabia o ministro da educação do governo cessante, o Dr. João Costa–, encantou-nos a todos com uma aula sobre a verdade na biografia de Camões.

Segundo Frederico Lourenço, Camões vivia uma vida dupla, onde por um lado se dedicava a brigas, agressões a guardas reais e a (várias) mulheres e, por outro lado, dedicava-se com “engenho e arte” à poesia. No entanto, o professor ressalvou que eram dois “eu” diferentes: o “eu” biográfico e o “eu” poético, que formam um “nós” poético digno da heteronímia de Fernando Pessoa.

Qual o problema destes “nós”? Assim como o Camões biográfico e histórico não coincide com o Camões poético também a mulher camoniana não coincide com as mulheres reais do tempo de Camões. O poeta quando se refere a uma mulher, não se está a referir a uma mulher em concreto, mas a uma construção literária de uma mulher. Portanto, a Lianor que pela verdura “descalça vai para a fonte” não vai descalça para fonte nenhuma, porque não era sequer uma mulher de verdade, mas sim uma construção literária.

Ou seja, se a mulher na poesia não passa de uma invenção, por que razão há de ser uma realidade em todos os outros âmbitos da vida? Portanto, o sujeito poético e a mulher camoniana não passam de construções sociais que, tal como o professor Frederico Lourenço concluiu na sua apresentação antes de um extasiado aplauso da audiência, não é por ser “um amor inventado que é menos verdadeiro do que um real”.
Assim, à boa maneira socialista, quando não há, inventa-se qualquer coisa nova e a essa coisa inventada atribui-se a categoria de realidade, sendo tão verdadeira a coisa real quanto a coisa inventada.

Quando a realidade não nos convém, podemos sempre utilizar uma metáfora poética e politicamente correta, sem nos preocuparmos com o indício de verdade (ou de mentira) que ela contém.

E se ser homem ou mulher é uma construção social ou uma invenção, cada um pode inventar o que quer ser e pode atribuir a essa invenção a categoria de verdade, porque, parafraseando o professor, o que é inventado é tão verdadeiro como o que é real. Para o Professor Frederico Lourenço, a mulher é uma invenção… e assim se propaga uma ideologia.

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