Blue Beetle, um escaravelho descabido

Bernardo Almeida

Título: Blue Beetle. Género: Ficção, Aventura . País de Origem: EUA, Mexico. Plataforma: HBO Portugal. Criador: Angel Manuel Soto. Actores principais: Xolo Maridueña, Bruna Marquezine, Adriana Barraza, Raoul Max Trujillo, George Lopez, Susan Sarandon. Nota: 2

Recensão

Estreou no passado dia 17 deste mês, na plataforma HBO, o filme mais recente da DC Comics, Blue Beetle, 3 meses depois da abertura nos cinemas portugueses.

Trata-se de um filme que inaugura a premissa de um herói latino, protagonizado pelo actor americano de herança mexicana, cubana e equatoriana, Xolo Maridueña, conhecido pela sua actuação na série Cobra Kai, em exibição na Netflix.

A este filme, realizado pelo cineasta porto-riquenho Angel Manuel Soto, juntam-se no elenco a actriz brasileira Bruna Marquezine, a actriz mexicana Adriana Barraza, o actores americanos Raoul Max Trujillo e George Lopez e a cara mais famosa deste conjunto, Susan Sarandon.

Blue Beetle conta a história do jovem Jaime Reyes (Madridueña) que volta para o seu bairro, cheio de aspirações quanto ao seu futuro, depois de acabar um curso universitário. Pouco depois depara-se com a dura realidade de ser oriundo de uma minoria étnica e a consequente falta de oportunidades de trabalho.

Num encontro fortuito com uma rapariga rica Jenny Kord, pertencente a uma família que domina o mercado da tecnologia de armamento, Reyes entra em contacto com uma peça misteriosa que o escolhe como anfitrião humano, conferindo-lhe habilidades extraordinárias.

Estas novas capacidades são procuradas pelos Kord para cimentar o seu império que tudo farão para conseguir resgatar o escaravelho poderoso. Este é ponto de partida para uma história entre heróis e vilões, entre a moralidade e a ganância.

Se este é o tema condutor do filme, a ele tem de se juntar mais uns quantos opostos, também eles já rotinados neste género de filmes. A pobreza financeira é contraposta pela união entre entes familiares e a riqueza económica, este distanciamento familiar  leva à rebelião. As dúvidas e idealismos da juventude opõem-se ao cinismo pragmático da idade.

A esta problemática agregam-se outros motivos que Soto traz de obras anteriores como o documentário de 2016 Inside Trump’s America. A personagem interpretada por Sarandon e mesmo algumas das suas linhas de diálogo, simbolizam o desprezo e a xenofobia que Soto ilustra no documentário. A separação das famílias vindas da América do Sul é também um assunto explorado em Blue Beetle, que assim assume de forma aberta uma componente política, algo que é também recorrente.

Blue Beetle tem várias atrapalhações que explicam o seu insucesso financeiro, resultado em mais um falhanço de bilheteria depois de Shazam, Black Adam e Flash.  Por um lado, quer enfiar demasiadas ideias num espaço de duas horas, por outro, é um chorrilho de efeitos especiais sem equilíbrio entre acção e pausa que resulta num histerismo.

O próprio fato que o escaravelho confere ao jovem Reyes parece um roubo narrativo entre a tecnologia do Iron man da Marvel e a história de origem de um outro filme da DC Comics, Green Lantern.

Um outro problema que desafia a suspensão do descrédito, a ponto de cruzar a linha para o ridículo, é a esteriotipificação de personagens nos temas abordados que resultam num in-your-face desnecessário.

Ao tentar trazer a cultura sul americana da família unida que não vacila perante tribulações, que tem uma índole matriarcal comandante das suas tropas (embora passe dois terços do filme quase a dormir) Soto cruza demasiadas vezes a linha do razoável.  O ridículo final, depois de tantos outros, é a cena onde Adriana Barraza aparece de Mini-Gun em punho a gritar propaganda política de tempos passados. É, de facto, muito mau.

Nem mesmo Sarandon consegue salvar este desenho animado. Blue Beetle custou 104 milhões a ser feito e granjeou apenas 129 milhões de receita. Não é fácil gastar tanto dinheiro numa história sem pés nem cabeça, mas pelos vistos é possível, uma e outra vez.

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