Uma história para o Francisco😊🐣
Era Domingo de Páscoa!
Uma Páscoa cheia de sol e calor, como já não se via há anos ali na Beira Alta!
Nesse fim de tarde, depois do ‘stress’ de arrumarem a casa e as bagagens, e as despedidas da família-agora já de regresso à capital- as filas de trânsito, o calor e o cansaço das últimas brincadeiras com os primos, tornavam a viagem difícil e os quatro irmãos no banco de trás estavam a ficar quezilentos e impacientes… e só se ouviam queixas:
‘…falta muito? … mas quando é que chegamos?’, ‘quero água… quero comer …’, ‘ó pai, já chega de notícias … ponha lá música, se faz favor, ou contem-nos uma história do vosso tempo…mãe, conte lá como eram essas suas Páscoas com os tios quando eram pequenos…’
A mãe riu-se, achou boa ideia, distribuiu as últimas bolachas e tangerinas, e enquanto o pai guiava, desligou o rádio e começou:
‘- Bem, era uma vez uma família numerosa que gostava muito de se juntar com avós, tios e primos numa pequena aldeia de pescadores no Algarve.
Eram miúdos felizes, gostavam muito daquelas férias entre praia e campo, mas um dos filhos pequenos parecia sempre ‘infeliz’ quando tinha de fazer trabalhos de casa de cópias e abecedários…andava então na primeira classe , mas teimava sempre que não queria aprender a ler… e ninguém sabia bem como lidar com aquela atitude… então a mãe, naquela Páscoa, sabendo que ele já conhecia as letras, mas achava muito difícil juntar as sílabas, combinou com todos os filhos na manhã de Domingo de Páscoa, uma caça aos ovos de chocolate, seguindo e lendo instruções em papéis coloridos com pequenas pistas até descobrirem no jardim os esconderijos dos ovos…todos se ajudavam e iam partilhando o que encontravam… riam-se imenso com as tentativas de leitura do mano ‘infeliz’ , e tudo correu muito bem : o rapazinho, finalmente, tinha descoberto a alegria de vencer obstáculos sem desistir… e, foi grande a festa nesse dia, porque à hora do almoço de Páscoa, com toda a família reunida na varanda frente ao mar, o avô levantou-se e anunciou em alta voz que naquela Páscoa, além da Ressurreição de Jesus que celebravam, havia uma outra alegria: o pequeno neto Francisco já sabia ler!!!
Só que, no meio do discurso do avô, quando todos lhe batiam palmas, aconteceu o inesperado: ele, todo envergonhado, em vez de agradecer, levantou se a correr, fugiu e foi-se esconder debaixo da cama… por fim, os manos lá o conseguiram convencer a voltar para a mesa para comer o seu gelado favorito… mas a verdade é que a partir desse dia, o pequeno Francisco nunca mais teve problemas com a leitura… e todas as noites queria ler mais e mais, com o pai ou a mãe, antes de ir dormir…’
‘- Mãe, agora já percebo a ideia da caça aos ovos desta manhã… eu sou como o tio Francisco, também não gosto nada de ler, não sei ler… e o pai obrigou-nos a ler os papelinhos da mãe…’- comentou o Pedro, que era o único que vinha muito calado lá atrás no seu banco.
Nesse momento, olhando pelo espelho retrovisor, o pai disse-lhes:
‘ É verdade, mas a caça de hoje não correu assim tão bem… desapareceu um ovinho de chocolate e ainda ninguém se acusou. Alguém roubou um dos ovinhos, comeu, até deixou a prata no chão, e quando vocês foram procurar já faltava um… quem terá sido? Foi um de vocês, ou algum dos primos? Que coisa tão estranha… não foi o gato, nem o cão, de certeza…’
O Pedro, a meia voz, disse que não tinha sido ele, enquanto os irmãos em alta voz se afirmavam inocentes…e todos diziam que se calhar tinham sido os primos…
Entretanto, o pai voltou a ligar o rádio, pôs música e passado pouco tempo as crianças dormiam, excepto Pedro.
Ninguém o acusara, mas os pais tinham visto que ele não dormia e estava a chorar. Entreolharam-se, sem dizer palavra.
À chegada a casa, cada um levou a sua mochila e enquanto descarregavam o carro, o pai disse ao Pedro que lhe queria dar uma palavra, mas ele fugiu escada acima, sem responder.
À noite, já depois do beijo de boas noites, quando as luzes se apagaram, o pai voltou a passar pelo quarto dos quatro rapazes e viu que todos dormiam, excepto Pedro que tinha a almofada toda molhada de lágrimas.
Então o pai pegou-lhe ao colo, apesar da sua resistência, e levou-o para a cozinha. Preparou-lhe um copo de leite quente e começou a conversar:
‘- Pedro, lembras-te da Via Sacra que fomos todos ver lá na aldeia, com as pessoas da terra vestidas à moda do tempo e da terra de Jesus? ‘
De olhos baixos, Pedro acenou afirmativamente.
‘- E lembras-te daquele momento, enquanto Jesus estava a ser condenado à morte, em que aquele Pedro disse a uma das mulheres que o reconheceu como discípulo de Jesus, que ele não conhecia Jesus, nem era amigo dele? Ele que era um dos grandes amigos de Jesus, estava a trair o seu maior amigo… e até tinha dito que nunca O abandonaria e estava disposto a dar a vida por Ele? E lembras-te do que aconteceu depois?’
‘- Ele chorou muito arrependido, quando ouviu o galo cantar…’- respondeu num murmúrio, o pequeno, de olhos baixos, a chorar, e acrescentou:
‘- Sim, pai, desculpe! Desculpe! fui eu que roubei o ovo e o comi… disse uma mentira, e acusei os primos, mas estou muito arrependido…’
O Pai deu-lhe então um grande abraço e explicou- lhe que ‘crescer’ também faz doer por dentro… e que nesse dia o Pedro estava a descobrir grandes coisas: aprendera a não desistir de ler, por mais difícil que parecesse, e aprendera a ter a coragem de dizer sempre a verdade, mesmo quando custa, e a pedir desculpa depois de qualquer erro…porque Jesus perdoa sempre, quando de verdade nos arrependemos…
Depois do leite quente e do abraço do pai, Pedro foi dormir o sono tranquilo das crianças e dos justos, feliz, com os olhitos de novo a brilhar e aquele sorriso de orelha a orelha que o caracterizavam.
Nessa noite, depois de o marido lhe contar o que acontecera, a mãe fechou os olhos, e feliz também, agradeceu o jeito que o pai tinha para educar…


